Cegueira, pedra na vesícula: conheça os efeitos raros ligados às canetas emagrecedoras
Por O Globo Terça-Feira, 10 de Fevereiro de 2026
No final de janeiro, um alerta do Reino Unido sobre efeitos raros ligados ao uso dos análogos de GLP-1, classe conhecida como "canetas emagrecedoras", repercutiu pelo mundo. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) afirmou que médicos e pacientes devem estar cientes de que alguns casos de pancreatite aguda graves foram associados a remédios como Wegovy e Mounjaro, aprovados para tratamento da obesidade.
A agência britânica recebeu quase 1,3 mil notificações da condição associada a esses medicamentos entre 2007 e outubro de 2025. Elas incluem 19 mortes e 24 casos de pancreatite necrosante, em que o tecido do pâncreas morre. No Brasil, o sistema VigiMed, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostra que 145 notificações de suspeitas de pancreatite foram registradas entre 2020 e 2025, incluindo 6 óbitos.
"Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula", afirmou a Anvisa, que também emitiu um alerta, em nota.
"A Agência recomenda que os usuários desses medicamentos procurem atendimento médico imediato, em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos — sintomas sugestivos de pancreatite. Os profissionais de saúde devem interromper o tratamento, ao suspeitar da reação, e não dar prosseguimento, caso o diagnóstico seja confirmado", complementou.
Essas ocorrências são suspeitas, ou seja, não foram ainda confirmadas como um efeito diretamente ligado à ação do medicamento. Casos de ideação suicida, por exemplo, também haviam sido associados aos remédios e, por isso, constam na bula dos fármacos, mas investigações recentes das agências reguladoras americanas e europeias descartaram uma ligação direta.
Ainda assim, a pancreatite aguda é considerada um efeito já conhecido e considerado incomum (que acomete de 0,1% a 1% dos casos) observado nos testes clínicos dos medicamentos, e estão nas bulas do Wegovy e do Mounjaro. Segundo a bula do Wegovy, da Novo Nordisk, a frequência dos casos nos testes foi de 0,2%, enquanto no grupo placebo foi de 0,1%. A maioria dos eventos foi classificada como pancreatite aguda leve.
Em nota, a Novo Nordisk diz que “vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade”, ou seja, as doenças que motivam o uso dos fármacos. “Os pacientes devem ser informados sobre os sintomas característicos e orientados a descontinuar o tratamento com semaglutida/liraglutida caso haja suspeita de pancreatite, e sugere-se ter cautela em pacientes com histórico de pancreatite prévia”.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, reforça que a pancreatite é uma “reação adversa incomum” e aconselha os pacientes a “conversarem com seu médico para obter mais informações sobre os sintomas de pancreatite e informar o médico e interromper o tratamento em caso de suspeita durante o tratamento com Mounjaro”.
Outros efeitos raros
Outro efeito raro associado aos medicamentos é uma lesão ocular grave chamada de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION, da sigla em inglês), que pode levar à perda da visão. Após o relato de casos suspeitos, uma investigação da Agência Europeia de medicamentos (EMA) concluiu que o uso da semalgutida, princípio ativo do Wegovy e do Ozempic, de fato é ligado a um risco aproximadamente duas vezes maior de desenvolver o problema.
O efeito, porém, é “muito raro”, afirma a autoridade, correspondendo a aproximadamente um caso a cada 10 mil pessoas (0,01%) que fazem o tratamento por ano. Ainda assim, levou a EMA a recomendar que a reação seja incluída na bula.
“Caso os pacientes experimentem perda súbita de visão ou piora rápida da acuidade visual durante o tratamento com semaglutida, devem procurar um médico sem demora. Se a NAION for confirmada, o tratamento com semaglutida deve ser interrompido”, orienta.
O Comitê Consultivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Segurança de Medicamentos (ACSoMP) também avaliou as evidências e concluiu que a NAION deveria ser incluída como um risco potencial nos documentos que acompanham os remédios.
“A OMS está emitindo este alerta de segurança devido ao uso global generalizado da semaglutida e à gravidade da NAION. Além disso, a OMS recebeu relatos individuais de segurança de casos de NAION após a administração de semaglutida de vários países por meio do VigiBase, o banco de dados global de eventos adversos relatados de medicamentos”, escreveu a organização em nota na época.
Em junho do ano passado, após a conclusão da análise pela agência europeia, a Anvisa seguiu a orientação e determinou que a lesão fosse incluída nas bulas brasileiras do Wegovy, do Ozempic e do Rybelsus.
“Trata-se de uma condição que pode ser irreversível e que exige atenção imediata. Os profissionais devem alertar seus pacientes sobre este risco, mesmo que raro, e orientá-los sobre os sinais de alerta. Os pacientes que tiverem sintomas como perda repentina de visão, visão turva ou piora rápida da visão durante o tratamento com semaglutida devem procurar atendimento médico imediatamente. Caso a NAION seja confirmada, o tratamento com semaglutida deve ser interrompido”, disse a agência na ocasião.
Outros efeitos mais raros são a colelitíase, presença de pedras (cálculo) no interior da vesícula biliar. A bula do Wegovy alerta que 1,6% dos pacientes desenvolveu o quadro, contra 1,1% no grupo placebo. A do Mounjaro também afirma que o problema é uma reação incomum, que afeta de 0,1% a 1% dos pacientes.
O mesmo ocorre para a queda de cabelo, relatada em 2,5% daqueles que fizeram tratamento com Wegovy, contra 1% do grupo placebo. “Os eventos foram principalmente de gravidade leve, e a maioria dos pacientes se recuperou durante a continuação do tratamento. A queda de cabelo foi relatada com maior frequência em pacientes com maior perda de peso”, diz a bula.
Eventos relacionados à alteração da sensibilidade da pele, como parestesia, dor na pele, sensibilidade cutânea, disestesia e sensação de queimação, também foram relatados por parte dos pacientes de ambos os medicamentos, porém em menos de 3% dos casos.
Além disso, há relatos de aspiração pulmonar entre pacientes que foram submetidos à anestesia geral ou sedação profunda. Por isso, é recomendado que, antes da realização desses procedimentos, o paciente converse com o profissional sobre o uso dos remédios e, se houver orientação médica, que interrompa o uso para realizá-los.