Quando a violência virou espetáculo, algo em nós também entrou em coma
Por Prof. Espedito Filho Segunda-Feira, 9 de Fevereiro de 2026
Sou professor há 25 anos na rede privada de ensino. Vivi a transição do quadro de giz para a tela digital, do bilhete na agenda para a exposição instantânea nas redes sociais. A modernidade trouxe avanços extraordinários, mas também revelou fragilidades profundas na formação emocional de muitos jovens.
A tecnologia é rápida. A exposição é imediata. A consequência, muitas vezes, é tardia — mas devastadora.
A recente violência que levou um adolescente ao coma e, depois, à morte, não é apenas um caso isolado. É um sintoma. Não apenas de agressividade juvenil, mas de uma cultura que transformou conflito em entretenimento e dor em conteúdo compartilhável.
O que mais fere não é apenas o ato violento em si — já trágico e revoltante — mas a plateia. Jovens que filmam. Jovens que assistem. Jovens que transformam o sofrimento alheio em cenário para curtidas. Isso nos obriga a uma pergunta incômoda: quando foi que a empatia perdeu espaço para a audiência?
Não escrevo para apontar culpados. Não dou lições às famílias. Sou pai de três filhos — um deles adolescente — e sei que educar hoje exige uma vigilância amorosa quase permanente. As famílias não se destroem por falta de amor, mas, muitas vezes, por falta de cuidado atento. E o descuido emocional cria um efeito dominó silencioso.
Vivemos uma geração que aprendeu a se mostrar antes de aprender a se conhecer. Que aprendeu a aparecer antes de aprender a conviver. Em um mundo que nos convida a compartilhar, muitos estão aprendendo a subtrair — respeito, dignidade, humanidade.
Não é apenas um jovem que entra em coma. É o senso coletivo de cuidado que adoece.
Quando a agressão vira palco, quando a humilhação vira moeda social, quando a violência vira entretenimento, a sociedade inteira perde um pouco da sua consciência.
O problema não é a juventude. Eu convivo com ela todos os dias e vejo talentos, sonhos, generosidade e inteligência pulsando. O problema é quando falhamos em ensinar que força sem ética é brutalidade, que exposição sem responsabilidade é vazio, e que liberdade sem empatia é perigo.
O bem comum ainda é a saída. Sempre foi.
Educar para o cuidado, para a responsabilidade e para o respeito não é discurso romântico — é urgência social. Jovens bem orientados não apenas constroem seus próprios caminhos, mas protegem os caminhos dos outros.
Que essa dor não se torne apenas mais uma notícia.
Que ela nos desperte.
Que olhemos com mais atenção para nossos jovens — não apenas para cobrar resultados, mas para formar consciência.
Porque quando um jovem aprende a ferir, alguém falhou em ensiná-lo a cuidar.
E o mundo precisa, mais do que nunca, de quem escolhe cuidar.
Espedito Filho