Padre do Sertão se refere a LGBT's como aberração durante homilia e discurso repercute
Por Click PB Quarta-Feira, 3 de Fevereiro de 2021
O padre Antônio Evandro de Oliveira, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Livramento, no município de Livramento, no Sertão paraibano, chamou de aberração ao se referir ao público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais) durante homilia dominical. O caso ganhou repercussão nacional e em virtude dos comentários negativos, as redes sociais tanto do religioso quanto da igreja foram 'fechadas' ao público.
O fato é que o discurso do padre gerou polêmica e pode ser considerado, em tese (caso a justiça entenda), um crime de transfobia. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu permitir a criminalização da homofobia e da transfobia. Os ministros entenderam que atos preconceituosos contra homossexuais e transsexuais devem ser enquadrados no crime de racismo. O discurso foi feito na homilia do domingo 24 de janeiro, mas que chegou ao conhecimento da população nesta semana.
Na homilia, o padre Antônio Evandro, ao comentar sobre a cidade de 'Nínive' iria ser destruída, mas foi suspensa por conta dos arrependimentos e humilhações da população, diz que o mundo está chegando ao ponto do cidade grega. “Hoje eu vi lá no Facebook, por acaso, estava vendo, não sei bem onde foi... Li só o subtítulo da matéria, que nasceram as crianças, por aí, não sei onde foi, e que no registro, não vai ter o sexo da criança. Para que, aqueles decidirem, quando crescerem, o que eles vão ser. Isso é uma aberração, gente. Como é que pode uma coisa dessa? Estão cegos? Não estão vendo se é homem ou mulher? Quer negar o que Deus criou?”, diz em seu discurso.
No entanto, o sacerdote continuou o seu discurso e fez questionamentos ao comportamento. “Você quer ser mulher, mas não é mulher coisa nenhuma. Você é porque você quer ser, mas na verdade fisicamente você não é. Tudo bem colocasse lá o sexo masculino ou feminino, um dos dois sexos. Quando estivesse grande, se a pessoa quisesse cortar, cortasse. Problema dela. Agora, desde criancinha, recém nascida, registar e não colocar se é homem ou mulher para que aquela criança decida depois. Isto é aberração das aberrações. Nínive está voltando”, completou.
Culpa políticos
Com isso, criticou os políticos ao afirmar que, as mudanças nas leis, são aprovadas pelos poderes legislativos em todo o mundo. O religioso ainda citou o reality da TV Globo, Big Brother Brasil 21 (BBB 21) afirmando que no programa há cinco pessoas LGBTs. E em tom de indignação, o padre bate na mesa e diz: “Oraaaaaa. Que negócio é esse? Que aberração é essa da Globo que está fazendo e quer fazer cada vez mais? Quer empurrar goela a dentro o LGBT”, afirmou. Para padre Antônio Evandro, há diferenças entre respeitar e respeitar. Afirma ainda que não se trata de LGBTfobia, mas de ética.
Sem resposta
O Portal entrou em contato com a Paróquia Nossa Senhora do Livramento, no início da tarde de hoje, mas foi a reportagem informada de que o padre não estava na igreja e que teria ido para a Casa Paroquial. No entanto, não havia um número telefônico a ser repassado para a equipe ouvir o posicionamento do religioso. A reportagem ainda procurou a Diocese de Patos, a qual a paróquia faz parte, mas as ligações não foram atendidas. O vídeo completo está na página oficial da paróquia.
Confira um trecho do discurso do religioso
Caso ocorra denúncias, o caso será investigado pela Polícia Civil da localidade. Em conversa com o delegado da Delegacia Especializada Contra Crimes Homofóbicos de João Pessoa, Marcelo Falcone, que não é responsável por possíveis investigações, mas que trabalha com o assunto, destacou ser necessário analisar contexto e o discurso completo do padre antes de emitir se houve crime.
Segundo Falcone, é preciso verificar, por completo, o vídeo em que o padre aparece falando sobre o assunto. Ele informou que apenas viu um trecho nas redes sociais, mas não sabe se houve edições antes da publicação na semana. "Todo fato, quando que vai ser levado a uma investigação policial , quando existe uma instauração de um inquérito policial, tem que ser amplamente investigado. É muito temerário a gente emitir uma opinião se foi, não foi crime", comentou.
O delegado lembrou que no sistema jurídico penal, uma pessoa só é considerada culpada quando há 'trânsito em julgado'. "Então existem várias posições, várias interpretações nesse sentido, inclusive com a preleção religiosa também", frisou. Destacou que algumas pessoas podem entender como discurso de preconceito uma situação, outras não. Lembrou ainda que se faz necessário uma investigação em torno do caso para saber se procede ou não como crime.