Vítimas cobram Igreja sobre abusos cometidos por padres e bispos
Por Metrópoles Sábado, 23 de Maio de 2026
Uma a cada seis pessoas conhece alguém que foi vítima de violência sexual cometida por um líder religioso, segundo uma pesquisa do Instituto IDEIA. Em meio à 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que ocorreu no fim de abril deste ano, em Aparecida, no interior de São Paulo, vítimas cobraram um enfrentamento efetivo da Igreja Católica aos frequentes casos de abusos que atravessam níveis distintos de sacerdotes.
Escrita por uma vítima em nome de outras, uma carta aberta — à qual o Metrópoles teve acesso — foi direcionada à instituição. “Não há neutralidade possível quando a dor das vítimas é deslocada, relativizada ou tratada como secundária. O silêncio diante delas não é um detalhe. Não é uma falha de comunicação. É uma decisão concreta. E decisões tomadas em uma assembleia episcopal carregam peso moral, histórico e pastoral”, diz um dos trechos do documento.
O que diz a carta
O texto argumenta que a conferência da CNBB tem capacidade de organizar agendas e prioridades administrativas, mas não a mesma disposição para “encarar a ferida mais profunda e mais escandalosa da vida eclesial contemporânea”.
“Senhores bispos, é preciso afirmar sem rodeios: não é possível falar de Igreja em missão enquanto a ferida dos abusos permanece fora do centro das decisões. Não é possível sustentar discursos sobre comunhão, sinodalidade [corresponsabilidade] e evangelização quando a escuta das vítimas não estrutura, de fato, o caminho da Igreja”, enfatiza o texto.
A carta destaca que bispos da assembleia já tiveram contato direto com vítimas. No entanto, aponta que, apesar de terem sido procurados, em alguns episódios, foram responsáveis pela revitimização. “Não responderam com escuta, acolhimento e responsabilidade, mas com silêncio, distanciamento institucional ou respostas que aprofundaram a dor de quem já estava ferido”.
Além disso, a correspondência define a postura de omissão como “fragilidade pastoral” e “crise de credibilidade”. O documento pede ainda que a estrutura da Igreja Católica pare de proteger a negligência.
Segundo a carta, há relatos de abusos cometidos por religiosos que se repetem em diferentes lugares, contextos e formas, mas que convergem na dificuldade de tratamento com a seriedade que a gravidade exige.
“Não se trata de casos isolados. Trata-se de uma realidade que insiste em não ser plenamente enfrentada”, complementa a mensagem. “Não há futuro possível para uma Igreja que ainda não enfrentou plenamente a verdade das suas próprias vítimas”, finaliza.
Abuso sexual e de poder
Um dos casos que teriam motivado a carta envolve o bispo alemão Dom Frei Bernardo Johannes Bahlmann, da diocese brasileira de Óbidos, no Pará. Contra ele, há acusações de abuso sexual e de autoridade, intimidação e acobertamento.
Segundo relato ao Metrópoles, sob condição de anonimato, as denúncias vêm sendo abafadas internamente na Igreja Católica.
De acordo com a Eckiger Tisch, organização sem fins lucrativos que representa os interesses das vítimas de violência sexual na infância e adolescência no contexto da Igreja Católica, o bispo Bahlmann é conhecido por ter ligação com empresas de mineração e grandes corporações. Por isso, as vítimas temem as consequências.
Radicado no Brasil desde 1983, Bahlmann atua sob o lema “a todos vida plena”. Começou a carreira sacerdotal em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Atualmente, além de 1º bispo diocesano no Pará, ele é prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, em Roma, na Itália.
Ainda segundo a organização alemã Eckiger Tisch, Bahlmann teria atuado protegendo Alberto Taveira Corrêa, arcebispo emérito de Belém do Pará, para obstruir uma investigação interna da Igreja Católica.
Bahlmann estaria ignorando depoimentos de testemunhas e intimidando denunciantes. Dom Alberto foi acusado de assédio moral e sexual por quatro ex-seminaristas que frequentaram a casa dele entre 2010 e 2014.
O caso de Dom Alberto se tornou público em dezembro de 202o. Contudo, o processo que apurava denúncias de abuso sexual contra o arcebispo de Belém foi encerrado em novembro de 2022, após assinatura da sentença definitiva pela Sé Apostólica do Brasil.
Quando as denúncias foram oficialmente feitas, quase 40 entidades assinaram uma nota pública para recomendar o afastamento imediato do religioso. Na época, via redes sociais, o arcebispo se defendeu e disse ser alvo de “falsas acusações”.
Ordenado em 1973, Dom Alberto se orienta pelo lema episcopal “para a vida do mundo”. O sacerdote tem passagens por Minas Gerais, Brasília e Palmas. Em dezembro de 2009, sob decisão do Papa Bento XVI, ele foi nomeado como o 10º Arcebispo Metropolitano de Belém.
Em 2022, segundo a ONG Eckiger Tisch, um coletivo brasileiro contatou diversas organizações de ajuda humanitária e dioceses alemãs para solicitar a suspensão de apoio financeiro à Diocese de Óbidos e à Arquidiocese de Belém do Pará.
Procurada pelo Metrópoles, a CNBB não se manifestou sobre a carta nem sobre os casos de abuso sexual envolvendo religiosos. Também contatadas, a Diocese de Óbidos, a Arquidiocese de Belém do Pará, assim como os bispos Bernardo Johannes Bahlmann e Alberto Taveira Corrêa, não se pronunciaram. O espaço segue aberto.