‘Todos temos que apoiar Lula’, afirma Cacique Raoni
Por Vicente Conserva Terça-Feira, 12 de Outubro de 2021
Principal liderança indígena brasileira na atualidade, o Cacique Raoni de 91 anos ainda se recupera dos efeitos da Covid-19 em seu corpo, mas concedeu uma entrevista ao site Repórter Brasil e falou sobre o momento político brasileiro. Raoni, que já foi muito criticado publicamente pelo atual presidente da República, Jair Bolsonaro, falou sobre a importância de promover uma mudança no Governo Federal e declarou o seu voto ao ex-presidente Lula, caso este confirme sua candidatura em 2022 para disputar mais uma vez o Palácio do Planalto.
Desde a morte da esposa, Bekywiká Metukitire, em junho de 2020, ele vive o luto e segue recluso em sua aldeia na Terra Indígena Capoto Jarina, às margens do rio Xingu, no norte do Mato Grosso. O luto para os Kayapó é um ritual longo. Impõe solidão e silêncio. Durante o período, Raoni deixou de usar o seu característico cocar amarelo e preto, parou de pintar o corpo e teve os cabelos cortados por um dos anciãos de seu povo. “É preciso ficar anti-social mesmo”, resume o seu neto, Beptuk Metuktire, de 26 anos, que acompanha a entrevista. O confinamento só acaba quando o ancião que cortou o seu cabelo — decretando o início do luto — entende que é o momento de retomar à normalidade. “Quando isso acontecer, a família vai pintar o corpo dele no final da tarde, vai colocar o cocar e ele vai passar a falar alto. A gritar”, detalha o neto.
Durante a entrevista, o cacique só elevou o tom de voz ao ser perguntado sobre as críticas que o presidente Jair Bolsonaro fez a ele, quando chegou a chamá-lo de “peça de manobra de governos estrangeiros” em um discurso na ONU. “Bolsonaro está fazendo coisa errada e eu não estou gostando. Ele quer a extinção dos povos indígenas e também pensa em destruir vocês, homens brancos”, afirma, com o dedo em riste.
Raoni se posicionou também em relação às eleições de 2022 e deixou clara sua preferência. “Se o Lula assumir, eu estarei lá com ele e vamos começar de novo a trabalhar juntos. Para que todos tenham paz”.
Por mais que a idade, a saudade da esposa, as sequelas da covid e o governo Bolsonaro abalem um dos líderes indígenas mais importantes do mundo, Raoni segue ambicioso e cheio de planos para quando colocar seu cocar, pintar o corpo e encerrar o luto. Entre eles, está ir a Brasília pressionar Alexandre de Moraes e outros ministros do STF a vetarem o Marco Temporal. Outro combate no horizonte é impedir que o projeto da Ferrogrão saia do papel – a ferrovia prevê um terminal de cargas em Matupá (MT), o que levará a soja a pressionar ainda mais o Parque Indígena do Xingu e a Terra Indígena do Raoni, a Capoto Jarina.
A trajetória de Raoni como figura pública vem desde o final dos anos 50, quando os irmãos Villas-Bôas fizeram contato com seu povo, e ele passou a ser o principal interlocutor dos Kayapó com o restante do mundo. Foi fundamental para demarcação de terras, para a defesa dos direitos indígenas na Assembleia Constituinte e para a preservação da floresta Amazônica.
As estantes do Instituto Raoni abrigam diplomas do cacique, além de fotos com reis, papas, presidentes e ícones pops, como o cantor Sting, com quem fez uma turnê por quase 20 países no final da década de 80. A instituição fica em uma avenida sem calçamento em Peixoto de Azevedo, uma cidade garimpeira no norte do Mato Grosso, às margens da BR-163 – rodovia sempre atulhada de caminhões gigantes carregados de soja e de outdoors de apoio a Bolsonaro.
O ambiente bolsonarista da região não intimida o cacique. “Todos temos que apoiar Lula para que ele assuma e tenhamos tranquilidade”, afirma, sempre terminando as frases com a expressão “é isso”, ou “tãm ne jã” em Kaiapó, como explicou o neto Beptuk, responsável pela tradução junto com o sobrinho Puiu Txukahamae.
Enquanto o luto não acaba, o cacique foi até Peixoto de Azevedo para fazer exames pulmonares. E aproveitou para comprar um notebook. Raoni quer o computador para assistir aos vídeos das festas nas aldeias.
Acompanhado de dois netos, ele foi até uma loja de eletrodomésticos na cidade vizinha de Matupá, mas assustado com o preço de quase R$ 5 mil, deixou a loja com a cara fechada. Depois, decidiu ir em outra loja, no centro de Peixoto de Azevedo, onde pediu desconto e negociou com o gerente. Do lado de fora, vários estabelecimentos anunciam a compra de ouro. Dentro da loja, os vendedores pedem selfies com o cacique.
Enquanto seus netos testam o notebook, ele senta em uma confortável cadeira massageadora em exposição na loja. Aos 91 anos, Raoni Metuktire está cansado. Descalça os chinelos, cruza as pernas e descansa. Parece guardar energia para as várias batalhas que ainda enfrentará.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Como está a saúde do senhor? Está totalmente recuperado?
Não. Não estou melhor ainda. Eu sinto dores no corpo e também um pouco de cansaço.
A Ferrogrão (ferrovia planejada pelo governo federal para levar a soja do Mato Grosso para o porto do rio Tapajós, no Pará) pode impactar os povos indígenas e o meio ambiente. O terminal de cargas em Matupá vai aumentar muito o volume de caminhões de soja na rodovia que corta o Território Indígena do Xingu e a Capoto Jarina, onde o senhor vive. O que acha desse projeto?
Eu vou te falar. Vocês homens brancos estão destruindo tudo e eu não estou gostando. Eu não aceito. Não será bom para nós povos indígenas Mẽbêngôkre (Kayapó). Nós sempre defendemos manter a floresta para que ela permita nossa sobrevivência. Essa terra é nossa desde nossos antepassados, onde nossos avós andaram. Tinha mata preservada. E hoje, vocês brancos, estão destruindo tudo. Os animais, os peixes, tudo! Todas as coisas vocês estão matando, e eu não estou gostando. É isso!
O senhor lutou muito contra a construção de Belo Monte, mas depois de anos a usina foi construída. Como vai ser a luta agora contra a ferrovia, a Ferrogrão?
Esse projeto não tem que existir. Vou pedir para o Instituto Raoni escrever uma carta repudiando esse projeto. E que façamos uma mobilização grande para lutar contra a Ferrogrão. Para que nossos netos estejam em paz nessa terra.