Carregando...
Por favor, digite algo para pesquisar.

Enamed: 4 em 10 médicos de curso privado se formam sem atingir proficiência

Por Calos Madeiro - UOL   Quinta-Feira, 22 de Janeiro de 2026

Praticamente quatro em cada dez médicos formados por faculdades privadas no país não alcançaram o índice de proficiência para exercer a profissão, segundo dados aferidos na 1ª edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) 2025.

Dos 24.487 formandos de cursos de particulares com ou sem fins lucrativos que fizeram o exame no país, 9.489 (38,8%) não atingiram o patamar de proficiência —que no Enamed é a nota igual ou maior a 60 pontos de 100 possíveis.

Os melhores desempenhos foram dos formandos de faculdades estaduais e federais, respectivamente.

O Enamed foi aplicado em outubro de 2025 a 39 mil formandos e teve resultado divulgado na última segunda-feira pelos ministérios da Educação e da Saúde e pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

O resultado por curso mostrou que o setor público levou grande vantagem: das 49 faculdades de medicina que tiveram nota 5 (máxima) do Enamed, 40 são públicas —a maioria delas (21), universidades federais.

As duas únicas instituições que tiveram 100% dos alunos proficientes são federais:

UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Já na outra ponta, entre as 28 que tiraram nota 1, 17 são cursos privados e só um é federal —a Universidade Federal do Pará. Ao todo, 13.871 se formam em faculdades com conceitos 1 e 2, que são considerados desempenhos "críticos" ou "insuficientes".

Você pode pesquisar notas e proficiência por faculdade clicando aqui. O site foi produzido pelo médico Ricardo Parolin Schnekenberg, que é pesquisador na University College London (Reino Unido).

Hoje, a maioria dos formandos de medicina no país são de faculdades privadas.

Formandos por tipo de faculdade:

Privada com fins lucrativos - 15.409
Privada sem fins lucrativos - 9.078
Pública federal - 6.501
Comunitária/Confessional - 3.882
Pública estadual - 2.402
Especial - 1.040
Pública municipal - 944

Mudanças na formação

Para Mário Scheffer, professor da medicina da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil, o resultado visto no Enamed já era esperado. "Foram autorizadas aberturas de muitos cursos que não comprovaram capacidade de formar bons médicos", diz.

"A maioria desses cursos privados com notas baixas foi aberta a partir de 2014, depois da Lei do Mais Médicos (de 2013). A lei também induziu ao fenômeno da judicialização, e muitas dessas faculdades foram abertas por determinação da Justiça", afirma.

A maior preocupação, diz, é que hoje mais de 70% das vagas dos cursos de medicina estão em faculdades privadas.

São muitos cursos que nitidamente não tinham corpo docente qualificado e/ou campo de prática adequado que foram autorizados. Sem contar que muitas vezes não há competição para ter acesso: têm cursos mal avaliados sem seleção, basta pagar que é admitido. Essa falta de concorrência é um fenômeno novo.
Mário Scheffer

Para ele, o resultado exige que o governo tenha mais rigor na autorização dos cursos. "Também é preciso conter a judicialização e só autorizar cursos que comprovem de fato que são capazes de formar bons médicos."

- Associações criticam

O resultado do Enamed foi criticado em nota da AMB (Associação Médica Brasileira), que demonstrou "extrema preocupação com os números que foram apresentados, que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país". "Exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias."

A entidade defendeu a necessidade de criar, "o mais breve possível, exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina".

"Sendo mais claro, não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM, impedindo-os, desta forma, de atender pacientes".

Também em nota, o CFM (Conselho Federal de Medicina) defende, "para segurança da população, que todos os cursos de medicina em funcionamento no país tenham, no mínimo, nota 4".

"Os resultados divulgados hoje mostram que o MEC reconhece que 107 faculdades de medicina possuem nível crítico e insuficiente quando se trata da qualidade do ensino e outras 80 escolas atingem apenas critérios minimamente aceitáveis", diz nota da entidade.

Quando mais de um terço dos egressos de medicina obtêm desempenho considerado insuficiente pelo próprio MEC, estamos diante de um problema estrutural gravíssimo. São mais de 13 mil graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem terem competências mínimas para exercer a medicina. Isso é assustador e coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros.
José Hiran Gallo, presidente do CFM, em nota

- Governo promete medidas

O Enamed será a partir de agora um exame anual. O governo Lula informou que vai adotar medidas contras os cursos que tiraram menores notas.

8 cursos tiveram menos de 30% de concluintes proficientes e sofrerão suspensão de ingresso.
13 cursos que tiveram o percentual de proficiência entre 30% e 40% terão redução de 50% da oferta de vagas.
33 cursos com 40% a 50% de concluintes proficientes passam por redução de 25% das vagas. Esses três grupos terão suspensa a participação no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) e em outros programas federais.
45 cursos que tiveram percentual de proficiência acima de 50% sofrerão apenas a proibição de aumento de vagas.
"Quanto maior o risco ou ameaça ao interesse público e aos estudantes, mais graves serão as medidas adotadas", disse, em nota.

Segundo o MEC, a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior notificou ou vai notificar as faculdades com notas baixas sobre a instauração de um processo administrativo de supervisão.

Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse país, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas.
Camilo Santana, ministro da Educação

- Associação vê divergência

A Anuo (Associação Nacional das Universidades Particulares) afirmou nesta terça-feira que acionou a Justiça após a divulgação do resultado do Enamed mostrar cerca de cem cursos de medicina em todo o país com desempenho insatisfatório. Ela alega inconstistências.

"A existência de bases de dados divergentes reforça o entendimento da Anup de que o Enamed, em sua edição inaugural, necessita de mais tempo para consolidação técnica e institucional antes de produzir efeitos regulatórios e sancionatórios", afirmou a associação.

A Anup disse que solicitou ao Judiciário que sejam considerados exclusivamente os dados oficiais disponibilizados às instituições por meio do sistema e-MEC, bem como a revisão de critérios que impactam diretamente a avaliação.

O Inep informou que não há erros nos dados e abriu prazo de cinco dias para contestação.”

« Voltar

Veja também...

DESDOBRAMENTOS

Banco Will: entenda como funciona a liquidação e os impactos da medida

Publicado em Quinta-Feira, 22 de Janeiro de 2026
Banco Will: entenda como funciona a liquidação e os impactos da medida

TV 40 Graus

Click 40 Graus

Jessica Meira

Jessica Meira: Uma loira espetacular

Publicado em Segunda-Feira, 5 de Janeiro de 2026
Jessica Meira: Uma loira espetacular