Léo Pereira, em vez de optar pelo passe curto em De la Cruz ou Pulgar, decide abrir o campo, invertendo a bola para Ortiz, que estava do outro lado. O camisa 3 estica na ponta para Wesley com um lindo passe de trivela e quebra as linhas. O lateral perde a posse parcialmente, mas a recupera e devolve a Ortiz.
Análise: Filipe Luís faz jus ao DNA do Flamengo e supera o Bahia fora
Por Globo Esporte Domingo, 6 de Outubro de 2024
Torcedor e conhecedor da história do Flamengo, Filipe Luís manteve o compromisso com o DNA do clube de não abdicar da busca pelo gol adversário do início ao fim. Na vitória por 2 a 0 sobre o Bahia, o Rubro-Negro voltou a mostrar um problema de falta de efetividade, o que o fez correr riscos de ser vazado aos 48 minutos do segundo tempo, por exemplo. Mas volta de Salvador repleto de sinais positivos de que o trabalho do treinador de 39 anos é muito promissor.
Pressão alta e encaixes individuais funcionam
Na entrevista coletiva, Filipe definiu o "DNA Flamengo" como "um jogo muito perigoso, é um jogo muito vertical, de pressão" e que requer riscos. Disse ele, aliás, que aceita se arriscar para ser protagonista do jogo por entender que tem condições para isso. Prometeu e cumpriu.
Com encaixes individuais e marcando o Bahia em seu campo de defesa, o Flamengo começou "pressionante", do jeito que Filipe queria. Com cinco minutos, Gabigol perdeu chance incrível após grande passe de Gerson, maestro do time e figura maior do jogo.
A pressão lá em cima continuou surtindo efeito. É verdade que o Flamengo esbarrava em algumas tomadas de decisão erradas, mas é fato também que assustava o Bahia, um time acostumado a ter a bola e que mandou no meio-campo na maioria dos outros três jogos realizados contra os cariocas em 2024. O maior reflexo de quanto o rival a mudança de característica do Fla sentiu foi uma bola em que o goleiro Marcos Felipe, atordoado dentro de sua pequena área, coloca para escanteio, tamanho o abafa que sofria àquela altura.
Pela primeira vez na temporada, o Rubro-Negro dominou o time de Rogério Ceni, tanto territorialmente quanto em criação de chances.
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Time do Flamengo comemora vitória contra o Bahia — Foto: Jhony Pinho/AGIF
O gol - em detalhes - que cumpre o desejo de Filipe
E o primeiro gol reflete bem o que Filipe quer de sua equipe (veja no vídeo abaixo). Quando Arrascaeta cobra a falta que ele mesmo sofrera próximo ao círculo central - agarrado por Caio Alexandre -, aos 34 minutos e oito segundos de jogo, os zagueiros Léo Pereira e Léo Ortiz e o volante Erick Pulgar atravessam a linha do meio-campo. Nesse momento, os 10 jogadores de linha do Flamengo estão no campo de defesa do Bahia.
O zagueiro aciona Arrascaeta, que, livre na ponta direita, abre o espaço para Wesley invadir a defesa adversária pela ponta direita. É aí que o Flamengo faz o que Filipe queria: atacar a área com pelo menos três jogadores. Na jogada em questão, eram quatro: Wesley, que cruza a bola; Gabigol, Bruno Henrique, que finaliza, e Ayrton Lucas, que pega o rebote e empurra para a rede.
Futebol total: dos 11 de linha, entre 34min8s, momento em que Arrasca bate a falta para Pulgar, e os 34min41s, quando Ayrton marca o gol, Gabigol foi o único a não tocar na bola. Apesar disso, o ataque de Gabriel Barbosa ao espaço abriu brecha para BH surgir limpo para chutar e o lateral-esquerdo surgir livre para concluir com sucesso a ótima trama ofensiva.
O Bahia teve uma chance solitária no primeiro tempo, com Thaciano, que desperdiçou na pequena área, mas o Flamengo teve supremacia nos 45 minutos iniciais contra um time que preza pelo predomínio territorial e se destaca pelo gosto pela bola.
Chances aos montes e o tal risco aos 48 do segundo tempo
O Flamengo repetiu contra o Bahia a falta de efetividade demonstrada contra Corinthians e Vasco, mas esteve longe do arame liso que irritou a torcida especialmente nos jogos com o Peñarol, ainda sob orientação de Tite.
Sob a batuta de um inspirado maestro Gerson, o Flamengo ocupou o campo de defesa do Bahia (veja abaixo nos mapas disponibilizados pelo site Footstats). Ayrton Lucas, Bruno Henrique, Arrascaeta e o próprio Gerson apareceram com perigo por inúmeras vezes. Tabelas apareceram, e as transições ofensivas do Rubro-Negro foram feitas em velocidade. A letargia que dominava o Fla nos últimos jogos sumiu.
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Veja o mapa de calor das duas equipes no jogo entre Bahia e Flamengo — Foto: Footstats
Alcaraz, Michael e Plata entraram bem, em especial o argentino, que participou muito bem do combate. Prova maior de que o Flamengo não abdicaria de atacar até o fim foi dada aos 47 minutos. Pulgar, em mais uma ótima jornada, apareceu para pressionar a saída do Bahia lá em cima e roubou bola. Alcaraz aproveitou e, mesmo destro, acertou um chute de esquerda muito bonito e parou em defesa de Marcos Felipe e no travessão.
De tanto querer o segundo gol e não deixar o campo de defesa adversário, aos 48 o time se desconcentrou e, como disse Filipe Luís, correu o tal risco de sofrer o empate. Luciano Juba apareceu sozinho para cabecear, mas perdeu.
Gerson fecha atuação como chave de ouro na bola e na atitude
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Gerson entrega a bola para Alcaraz bater o pênalti — Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
Quando o Bahia tentava o último abafa, Gerson, o craque do jogo, chamou para si a responsabilidade de apagar a chama do adversário. Aos 51, recebeu na ponta, cortou para fora e tomou uma pancada. Ganhou tempo.
Aos 52, após pegar uma rebatida de pegar, tirou um coelho da cartola. Com um passe de chaleira, venceu a marcação, tabelou com Plata e surgiu na ponta direita para cruzar de três dedos. A jogada de craque foi premiada com o pênalti infantil de Árias, que deu um soco em Michael dentro da área.
Ciente de que o jogo estava finalizado, o capitão teve atitude de líder e, em vez de pegar a bola e bater o pênalti que o consagraria como homem do jogo, entregou-a a Alcaraz, que entrara muito bem e ainda não havia marcado gols pelo Flamengo.
O argentino aceitou a gentileza e agradeceu a Gerson com uma ótima batida.
O Flamengo correu riscos, sim, mas não renunciou à característica que a torcida mais cobra: atacou o tempo todo. De DNA rubro-negro, Filipe Luís cumpriu a expectativa de entender o que muitos treinadores não conseguiram nos últimos anos, em especial nos últimos meses. O 1 a 0 sem riscos, o jogo que prioriza a segurança em detrimento ao ataque não serve para o Flamengo. O Flamengo precisa atacar e pressionar. Sempre.