Scout do apito: Flamengo investe em análise de dados de árbitros
Por Globo Esporte Quinta-Feira, 2 de Abril de 2026
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, revelou em podcast da Flamengo TV que o departamento de futebol agora conta com serviço de scout de arbitragem. A ferramenta é mais uma que serve aos treinadores em preparação de equipes para os jogos.
O levantamento chega ao treinador Leonardo Jardim antes de cada partida. A ideia é conhecer a fundo a característica da arbitragem dos profissionais escalados. Mas também conhecer como o o juiz se comporta em relação a um time da casa, como reage com atletas visitantes numa partida. Se é mais ou menos rígido com reclamações e ceras e nos acréscimos de um jogo, por exemplo.
— A gente avalia os árbitros. Eles contra eles mesmos. Quando eles apitam o jogo, como é que eles apitam o jogo para o time da casa, para o time visitante? Quais critérios que eles usam, como é que reagem às situações? Então, a gente sabe exatamente qual é o melhor árbitro para apitar para o Flamengo jogando no Maracanã ou fora. A gente gostaria de ter um árbitro no Maracanã e não gostaria de ter quando a gente joga fora, por exemplo — comentou Bap à Flamengo TV, indicando possíveis preferências para partidas do time. O que segundo a CBF não se reflete na escala - leia a nota completa mais abaixo.
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Árbitros durante treinamento da CBF: clubes investem em observação de profissionais do apito e até de comportamento de VAR — Foto: CBF/Divulgação
Este tipo de informação a respeito de árbitros não é exatamente novo. Em outros tempos, o próprio Flamengo chegou a contratar o ex-árbitro Sálvio Spinola para passar orientações a atletas. A atual ferramenta do “scout do apito” é um relatório de 20 páginas que chega a comissões técnicas e aos jogadores do Flamengo desde o segundo semestre de 2025. O Cruzeiro foi o primeiro a contratar o serviço, em 2023. No ano passado, o Botafogo também contou com a análise.
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Relatório interpreta e calcula capacidade de interferência de decisões de árbitros. Quanto maior o número, maior a interferência — Foto: RefData
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Levantamento também mostra árbitros que concedem mais acréscimos e também costumam dar mais cartões por reclamações e cera — Foto: RefData
O “scout do apito” serve, principalmente, a treinadores estrangeiros que tem poucas informações de arbitragem no Brasil. A ferramenta que o Flamengo contratou foi batizada de RefData pela equipe de João Marcello Costa, coordenador do escritório de Michel Assef Filho, que trabalha para o time da Gávea há muitos anos. Mas a proposta começou quando o português Pepa chegou ao Cruzeiro, outro cliente do escritório em 2023.
— Com a chegada de um número cada vez maior de treinadores estrangeiros, percebemos que os clubes não possuíam um material que preparasse suas Comissões Técnica para o perfil da arbitragem brasileira. A partir daí, decidimos criar um banco de dados para abastecer os clubes e diminuir esse “gap” que, na prática, acabava por significar que os técnicos só tinham ideia de como era o perfil de atuação de determinado árbitro após a partida — conta João Marcello.
Dados e análise
A base de dados foi construída a partir do cruzamento de súmulas oficiais e outras fontes públicas, mas também há trabalho de apuração direta da equipe do escritório, com análise particular e validação manual. Tudo com auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial.
Um relatório mais recente que o ge reproduz em trechos analisava Rodrigo José Pereira de Lima, árbitro Fifa desde 2024. Pequeno texto de introdução o classificava como "disciplinador" e "ríspido com atletas", o que se refletia em alto número de cartões.
— Com esse perfil previamente desenhado por nós, os clubes podem preparar seus técnicos (brasileiros ou não) e, consequentemente, jogadores, para o rigor e os hábitos de determinados árbitros, o que pode gerar vantagem tática na prática — explica João Pedro Andrade, sócio da RefData.
Parte da análise ranqueia 27 árbitros que apitaram mais do que cinco partidas - Rodrigo era o terceiro entre 27 que mais aplicava cartões por reclamação e o 23º entre 27 que mais dava pênaltis para o time mandante. Também analisa os dados num índice chamado de "xR" para avaliar interferência de uma arbitragem em partidas. E ainda traz informações de todos assistentes do VAR escalados por jogo.
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Zé Ricardo nos tempos de Flamengo costumava usar relatórios do ex-árbitro Sálvio Spinola — Foto: Gilvan de Souza / Flamengo
Técnico do Flamengo em 2016, quando recebeu a consultoria de Sálvio Spinola, e do Cruzeiro mais recentemente, Zé Ricardo passou a utilizar este tipo de informação em preleções para atletas. Ele vê como recurso fundamental para orientar o comportamento de atletas em campo.
— A gente avisa, por exemplo, sobre um árbitro que dá muito amarelo. O que é importante caso meu time tenha jogadores pendurados. Mas também passamos até se o árbitro gosta de ser chamado pelo nome e não de "professor" — exemplifica Zé Ricardo, que seguiu estudando comportamento de árbitros para os últimos trabalhos.
CBF: "não é permitido veto ou preferência por árbitros"
A reportagem perguntou à CBF sobre como ela reage a eventuais preferências de um árbitro a outro para partidas como mandante ou visitante. Nas palavras do presidente Bap, "a gente sabe exatamente qual é o melhor árbitro para apitar para o Flamengo jogando no Maracanã ou fora".
A CBF enviou nota à reportagem e disse que, apesar do livre acesso para reuniões com a comissão de arbitragem, não existe espaço para vetos ou preferências por árbitros. Confira a nota completa abaixo:
"Existem muitos fatores que determinam vencedores e perdedores em uma partida de futebol. Os jogadores, a tática, a técnica, o psicológico, o emocional, a preparação física e o momento na competição trazem muito mais elementos relevantes do que a hipótese de que um árbitro seria melhor para apitar jogos em casa do que como visitante.
Na arbitragem profissional de alto nível um árbitro é escalado exclusivamente por seu histórico, experiência e pelo momento. Existem normativas da FIFA para a constituição de comissões de arbitragem, assim como de desenvolvimento dos trabalhos diários com independência, autonomia e isenção.
Ao prepararmos a escala, analisamos sempre os antecedentes dos clubes para com o árbitro e vice-versa, evitando qualquer contratempo. Não há qualquer tipo de veto ou proibição de clubes à escalação desse ou daquele profissional.
Todos os clubes têm acesso à presidência da Comissão de Arbitragem da CBF, por meio de reuniões e fóruns semanais, porém não é permitido veto ou preferência por árbitros, já que a designação ou não de um profissional é de inteira responsabilidade do setor, do Presidente da Comissão de Arbitragem da CBF."