Governo Lula prepara reforço de recursos para enfrentar El Niño e monitora risco de queimadas
Por Brasil 247 Quarta-Feira, 3 de Junho de 2026
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia a liberação de recursos extraordinários para reforçar o combate a incêndios florestais diante da possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño em 2026. As informações foram reveladas pela Folha de São Paulo e indicam que a administração federal já discute medidas preventivas para enfrentar uma eventual intensificação da seca e das queimadas em diferentes regiões do país.
O tema foi debatido na segunda quinzena de maio durante uma reunião da sala de situação contra incêndios, grupo que reúne diversos ministérios e órgãos federais. A expectativa é que o assunto volte à pauta em um novo encontro previsto para este mês, quando serão avaliadas medidas adicionais e a necessidade de novos recursos para execução das ações planejadas.
Além das preocupações climáticas, o governo também acompanha possíveis impactos do ambiente político das eleições de 2026 sobre o aumento de queimadas criminosas. Um mapeamento interno identificou áreas consideradas mais vulneráveis à ocorrência de incêndios intencionais que possam ser utilizados como instrumento de disputa política ou ataques ao governo federal.
Segundo o planejamento em discussão, as forças de segurança deverão atuar em operações de fiscalização e investigação, enquanto o Ministério da Defesa poderá oferecer suporte logístico. Já o Ministério dos Transportes deverá colaborar em ações de monitoramento e controle de rodovias.
A estimativa preliminar é que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) necessitem de aproximadamente R$ 200 milhões em crédito extraordinário. Parte desses recursos seria destinada à recomposição de perdas orçamentárias e ao fortalecimento das ações de prevenção e combate ao fogo.
Paralelamente, a Advocacia-Geral da União (AGU) prepara uma resposta ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as providências adotadas pelo Executivo para enfrentar os possíveis efeitos do El Niño.
Durante reunião ministerial realizada nesta quarta-feira (3), a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, destacou a entrega de R$ 150 milhões do Fundo Amazônia em equipamentos destinados ao combate a incêndios em estados localizados nos biomas Pantanal e Cerrado.
"Muito importante, a gente sabe que o El Niño está chegando ameaçadoramente, mas nós estamos nos preparando para enfrentar da melhor maneira os seus efeitos", afirmou a ministra.
El Niño preocupa governo e especialistas
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico. Seus efeitos costumam provocar alterações significativas no regime de chuvas e temperaturas em diversas partes do planeta.
No Brasil, o fenômeno normalmente favorece períodos de seca e calor intenso nas regiões Norte e Nordeste, criando condições favoráveis para incêndios florestais. Ao mesmo tempo, pode provocar chuvas volumosas no Sul do país, como ocorreu durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Além dos impactos ambientais, o El Niño também afeta diretamente a produção agrícola e pode contribuir para o avanço do desmatamento. O fenômeno esteve entre os fatores associados às graves temporadas de queimadas registradas em 2020 e 2024.
Atualmente, o Ministério do Meio Ambiente realiza monitoramento permanente da situação em conjunto com meteorologistas de instituições como a Agência Nacional de Águas (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Ibama e outros órgãos especializados.
De acordo com avaliações apresentadas ao governo, existe cerca de 70% de probabilidade de formação de um El Niño de forte intensidade ou superior. Entretanto, os técnicos ressaltam que ainda há elevado grau de incerteza nas projeções, estimado em aproximadamente 50%, e que um cenário mais preciso deverá ser conhecido apenas em julho.
Estratégia inclui queimas controladas e integração com estados
Enquanto aguarda previsões mais conclusivas, o governo federal intensifica medidas preventivas. Entre elas está a ampliação das chamadas queimadas prescritas, técnica de manejo controlado utilizada para eliminar material vegetal seco que pode servir de combustível para incêndios de grandes proporções.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a adoção dessa estratégia em 2025 contribuiu para uma redução de 39% da área queimada no território nacional em comparação com a média observada nos oito anos anteriores.
A integração com estados e municípios também é considerada fundamental. Como a maior parte dos incêndios tem início em propriedades privadas, o combate inicial costuma ficar sob responsabilidade dos corpos de bombeiros estaduais.
Desde 2024, o governo federal vem firmando acordos de cooperação com entes federativos. Um plano integrado voltado aos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal deverá ser lançado ainda este ano.
Outra frente de atuação envolve a criação de uma parceria com as polícias militares ambientais dos estados. O contingente estimado é de cerca de 8 mil agentes, que poderão atuar em ações preventivas e de policiamento ostensivo em áreas de maior risco.
O Ibama também reforçou a estratégia de responsabilização preventiva. Somente neste ano, o órgão já emitiu 574 notificações prévias a proprietários rurais. A medida permite responsabilizar os donos de áreas atingidas por incêndios caso não tenham adotado ações preventivas exigidas pela legislação.
Pará lidera lista de áreas consideradas mais sensíveis
O cenário eleitoral de 2026 é tratado como um fator adicional de preocupação. Em avaliações internas, o Pará aparece como o estado com maior risco de ocorrência de queimadas motivadas por disputas políticas.
O levantamento aponta Altamira, Novo Progresso e São Félix do Xingu como os três municípios classificados com maior grau de risco. As cidades concentram elevados índices de desmatamento ilegal, grilagem de terras e expansão da pecuária.
Outros 18 municípios foram classificados em uma faixa intermediária de risco, distribuídos entre os estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso e Tocantins. Além disso, cerca de cem cidades em diferentes regiões do país permanecem sob monitoramento por apresentarem algum nível de vulnerabilidade.
A estratégia federal prevê atuação prioritária da Polícia Federal nessas localidades, com foco na identificação de responsáveis por queimadas ilegais, realização de flagrantes e aprofundamento das investigações.
Reforço operacional e cooperação internacional
O governo já mobilizou 4.410 brigadistas em mais de 200 equipes do Ibama e do ICMBio, o maior contingente já registrado para esse tipo de operação.
O planejamento também prevê o emprego de mais de 200 agentes da Força Nacional em atividades de combate ao fogo e segurança de equipes de fiscalização. Além disso, está em estudo a utilização de aeronaves do Ministério da Defesa, o que poderá exigir contratação adicional de horas de voo.
Outra medida em análise é a ampliação da cooperação com a Bolívia para ações de prevenção e combate a incêndios em áreas de fronteira, com coordenação do Ministério das Relações Exteriores.
O pacote de ações inclui ainda campanhas de conscientização voltadas a produtores rurais e à população, treinamento de brigadistas e iniciativas de limpeza de estradas e áreas consideradas mais suscetíveis à propagação do fogo.