A Globo se atola no próprio esgoto em entrevista com Lula
Por Brasil 247 Sexta-Feira, 28 de Agosto de 2026
A última entrevista do presidente Lula, ocorrida ontem no Jornal Nacional, não poderia deixar de carregar as marcas deletérias históricas da TV Globo. A mesma emissora que editou o debate decisivo em favor de Fernando Collor em 1989 e que, usando como pano de fundo do noticiário dutos de esgoto a escoar dinheiro, transformou a Lava Jato em um espetáculo midiático, viveu na quinta-feira (27) mais um capítulo nefasto de sua cobertura política, atolando-se no próprio esgoto.
Foram 45 minutos de interrogatório severo, em estilo inquisitorial, a causar inveja a Sérgio Paranhos Fleury, o temido delegado do DOPS, da época em que até jornalistas da própria emissora eram torturados e mortos nos porões da ditadura militar.
Seguindo o roteiro traçado, os âncoras inquisidores concentraram o debate na tentativa de fazer o candidato confessar ter ciência de supostas irregularidades atribuídas ao seu filho, Fábio Luís. Trata-se de um caso ainda sob investigação da Polícia Federal no qual, até o momento, não foram apresentadas provas materiais ou bancárias de vínculos contratuais com o Ministério da Saúde, mesmo tendo o próprio investigado colocado seus sigilos à disposição da Justiça.
Ao antecipar juízos de valor sobre um caso ainda sob investigação, o jornalismo da emissora tenta, mais uma vez, mudar os rumos da eleição e flerta com erros do passado, remetendo à precipitação histórica da cobertura do caso Escola Base.
A tentativa de reeditar velhas fórmulas e produzir recortes inflamáveis, cuidadosamente escolhidos para alimentar as redes sociais, esbarrou, contudo, em uma nova realidade política. O Brasil de hoje não é o de 1989; muito menos o candidato.
Aos 80 anos, calejado pela própria vida e por sucessivas batalhas públicas, Lula não se acuou. Reagiu aos golpes no próprio estúdio e confrontou a emissora ao relembrar episódios de parcialidade, como a cobertura da Lava Jato e a proximidade com o ex-juiz Sergio Moro — o mesmo que, quando escolhido a “Personalidade do Ano” de 2014, recebeu o prêmio das mãos de João Roberto Marinho. Lembrou ainda o famigerado PowerPoint da GloboNews, que o colocava no centro das acusações e como principal envolvido no maior escândalo financeiro do país, o caso Banco Master.
Enquanto temas cruciais sobre a economia, propostas de governo e o balanço da gestão foram negligenciados, a entrevista cumpriu o papel de, mais uma vez, tentar criminalizar Lula e o PT, além de municiar a oposição com cortes para a disputa digital. Sem os debates eleitorais, a Globo se travestiu de candidato de oposição e exagerou na interpretação. Vamos ver se a estratégia dará certo.
No fim das contas, a Globo pode ter preparado o cenário, escolhido as perguntas e definido o roteiro. Mas quem entrou naquele estúdio foi um Lula que já conhece, há décadas, os métodos de seus adversários. E saiu de lá sem se curvar.
A campanha está apenas começando. A Globo já deixou clara sua linha editorial e que pretende ocupar o lugar da oposição. Resta saber se o eleitorado aceitará que o debate público seja pautado por roteiros de estúdio ou se definirá o voto com base no balanço real do país e nas propostas para o futuro.
Segundo a jornalista Daniela Lima, uma pesquisa qualitativa realizada pelo mercado financeiro com eleitores indecisos mostrou um resultado frustrante: a entrevista não foi capaz de converter os indecisos em votos.