Igreja Presbiteriana pode declarar Legendários incompatível com sua doutrina
Por O Globo Terça-Feira, 21 de Julho de 2026
A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) vai decidir, no fim deste mês, se o movimento Legendários — que se apresenta como uma iniciativa para “restaurar o verdadeiro potencial masculino” — pode ser considerado incompatível com os princípios doutrinários da denominação. A discussão está prevista para ocorrer durante o Supremo Concílio, que começa no próximo domingo (26).
A análise será baseada em um parecer elaborado pelo Sínodo do Tocantins. O texto recomenda que integrantes da IPB, entre eles pastores, presbíteros e diáconos, deixem de participar ou incentivar o Legendários. As informações são da Folha de S. Paulo.
Na avaliação dos autores do documento, o programa contraria a tradição reformada das igrejas protestantes ao adotar métodos ligados ao coaching. O parecer sustenta que essa abordagem relativiza a suficiência das Escrituras e da obra de Jesus Cristo.
Caso seja aprovado pelo Supremo Concílio, o documento servirá como orientação oficial para toda a Igreja Presbiteriana do Brasil. Além disso, poderá subsidiar os conselhos regionais na análise da situação de membros que optarem por permanecer vinculados ao movimento. O texto prevê a adoção de “vigilância pastoral” e, quando necessário, a iniciativa de “orientar, em amor, os irmãos que tenham aderido a tais movimentos”.
O parecer também critica a incorporação de práticas inspiradas no ambiente corporativo, como técnicas motivacionais e estratégias de marketing. Entre os exemplos apontados estão gritos de guerra, o uso de camisetas padronizadas e a identificação numérica dos participantes, incluindo situações em que Jesus Cristo seria chamado de “Legendário 001”. Segundo o documento, esses elementos representam um “nítido desvio” do Evangelho.
Outro ponto levantado é que atividades como restrição alimentar, esforço físico intenso e pressão psicológica podem provocar estados emocionais posteriormente interpretados como experiências espirituais. O parecer ainda alerta que o movimento pode estimular uma divisão entre os chamados “legendários” e os demais membros da igreja, comprometendo a unidade das congregações e enfraquecendo a autoridade de pastores e conselhos.
Por fim, o documento afirma que o Legendários apresenta características associadas ao neopentecostalismo e conclui que elas são inconciliáveis com a tradição reformada da Igreja Presbiteriana do Brasil, defendendo que práticas dessa natureza não substituam a centralidade das Escrituras nem o papel da igreja.
O que é o Legendários?
Nascido na Guatemala, em 2015, com o propósito de "restaurar o verdadeiro potencial masculino" e hoje com mais de 100 mil adeptos no mundo, o movimento cristão Legendários se espalhou no Brasil com o impulsionamento de celebridades e políticos.
Até agora, ao menos 17 cidades — inclusive as capitais Campo Grande, Cuiabá e Vitória — e dois estados — Mato Grosso e Paraná — já instituíram como lei o Dia dos Legendários. Além disso, integrantes com maior influência econômica deste movimento que só tem homens passaram a incorporar práticas ligadas ao universo financeiro como uma forma de prosperidade, para atrair novos participantes.
No Brasil desde 2017, quando chegou em Balneário Camboriú (SC), o movimento não está ligado a uma religião específica, embora a maioria dos eventos esteja vinculada a grandes denominações evangélicas.
Para se tornar um legendário, os homens precisam passar 72 horas em uma montanha, sem contato com o mundo exterior, e superar desafios físicos e espirituais. Levar uma Bíblia é requisito obrigatório. O objetivo é alcançar uma "nova relação" com Deus, com a promessa de que os participantes se tornarão melhores maridos e pais. O preço para subir a montanha como legendário custa em média R$ 1,5 mil, conforme a localidade escolhida.