Religião como moeda de troca política: a fé e o bolsonarismo em 2025
Por Metrópoles Domingo, 4 de Janeiro de 2026
A religião e bolsonarismo têm uma relação de proximidade desde a ascenção do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no cenário político. Em 2025, complicações de saúde e a condenação dele a 27 anos e 3 meses por participação na trama golpista evidenciaram ainda mais essa aproximação entre política e religião.
De acordo com o cientista político Murilo Medeiros, Bolsonaro e família compreendem a religião como um “poderoso marcador identitário” e a fé não é apenas uma crença pessoal, mas uma “linguagem política permanente”.
“O bolsonarismo se estruturou como uma política de valores, na qual temas como família, autoridade e oposição a pautas identitárias passaram a organizar a percepção de pertencimento político”, diz o cientista.
Medeiros explica que a fé, no âmbito dos eleitores de Bolsonaro, funcionou como um “atalho de confiança política” em um cenário de desconfiança generalizada. No entanto, ele reforça que a religião na esfera pública não é problema para a democracia, inclusive, a liberdade religiosa é um pilar da sociedade.
“O desafio democrático surge quando a expressão da fé passa a capturar instituições do Estado, substituindo o pluralismo por uma lógica de exclusão”, explica.
Para o cientista político, o desafio atualmente é “encontrar o equilíbrio entre o respeito à livre manifestação da fé, sem permitir que ela se transforme em hegemonia institucional”.

O analista especialista em marketing político, Deividi Lira, a relação entre religião e política no Brasil é histórica e estrutural, e, na democracia contemporânea – especialmente a partir da Constituição Federal de 1988 – o vínculo se reorganiza: “O Estado se afirma laico, mas a liberdade religiosa amplia a presença de atores religiosos no debate público”.

Para Deividi, o crescimento das igrejas evangélicas, sobretudo as neopentecostais, reforçou a religião como discurso político, usada para construção de identidades coletivas e pautação de discursos morais, e tem o impacto ambíguo: “Ao mesmo tempo em que amplia a participação política de determinados grupos, também tensiona a laicidade do Estado e contribui para uma polarização baseada em valores absolutos, deslocando o debate de políticas públicas para disputas, muitas vezes, morais”.
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A fé e o bolsonarismo
O ano não foi fácil para apoiadores de Jair Bolsonaro. O ex-presidente teve um ano repleto de reviravoltas, desde complicações de saúde até a condenação a 27 anos e três meses de prisão por envolvimento na trama golpista.

No dia 13 de abril, Bolsonaro passou por um procedimento cirúrgico, para tratar uma suboclusão intestinal — obstrução parcial do intestino, e ficou cerca de três semanas internado no hospital DF Star, em Brasília. Ao longo desse período apoiadores, liderados pelo bispo Fernando Fé, costumavam cantar e orar pelo ex-presidente de 3 em 3 horas.
No dia 4 de agosto, por determinação do STF, Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar após descumprir algumas medidas restritivas impostas, no dia 18 de julho, pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Durante o período preso em casa, recebeu a visita de diversos parlamentares aliados, e um outro grupo se destacou na forte presença na casa de Jair: o de religiosos, amigos da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro que prestavam “apoio espiritual à família” e apoiadores.
O apoio religioso não limitou-se a visitas à residência de Bolsonaro. Do lado de fora do condomínio Solar de Brasília, onde o ex-presidente cumpriu domiciliar, apoiadores realizaram diversas vigílias cristãs em apoio ao ex-mandatário do Planalto.
Entre 1º e 19 de setembro, o Solar de Brasília se tornou ponto de vigílias diárias organizadas por Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro.

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As vigílias religiosas tem como objetivo apoiar o ex-presidente, por meio de orações.
Os encontros reuniram deputados, senadores, militantes e fiéis vestidos de verde e amarelo, com bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel. Cantavam hinos cristãos, faziam orações e pediam “força e livramento” para o ex-presidente.
Uma das principais frequentadoras dos atos religiosos pró-Bolsonaro, Eliane Pereira, de 62 anos, conhecida como Lili Carabina, comentou ao Metrópoles o que busca com os atos.
“Seguimos firmes desde então, porque Deus disse: ‘Digo ao fraco que eu sou forte’. O que nós precisamos é que Deus fortaleça e restaure a saúde do Jair Messias Bolsonaro, porque nós, brasileiros de bem, precisamos dele para salvar o Brasil”.

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Dia da prisão preventiva
No dia 22 de novembro, Bolsonaro foi preso preventivamente pela Polícia Federal (PF), deixando a domiciliar e passando a cumprir pena na Superintendência da PF.
No mesmo dia, foi realizado um ato religioso em apoio a Bolsonaro, na frente do condomínio Solar de Brasília. Na decisão que decretou a prisão preventiva, o ministro Alexandre de Moraes citou a vigília, convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como um dos fatores que ensejaram a decisão.
Após esse período, o movimento perdeu força. Entre o fim de 2025 e o início de 2026, quando Bolsonaro foi internado no DF Star para ser submetido a procedimentos cirúrgicos, a presença de apoiadores reduziu significativamente.
O ex-presidente deixou o hospital no dia 1º/1 e voltou para a prisão, na Superintendência da PF.