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Hugo Motta se queixa de atuação do presidente Lula a favor de adversário de seu pai ao Senado

Por O Globo   Segunda-Feira, 13 de Julho de 2026

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), se queixou a pessoas próximas do que considera uma postura injusta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com ele, num momento em que o Palácio do Planalto enfrenta dificuldades para avançar com propostas de interesse no Senado e vê Motta como um aliado. Um dos gestos que gerou contrariedade foi um vídeo, divulgado no começo de junho, em que Lula declara que apoia a reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Veneziano disputa uma vaga ao Senado com Nabor Wanderley (Republicanos), pai de Motta.

Um aliado próximo do presidente da Câmara diz que era esperado um apoio a Veneziano pela relação de proximidade que ele tem com Lula, mas o deputado foi pego de surpresa com o vídeo — não foi avisado previamente —e achou o "timing" ruim, já que isso ocorreu antes mesmo do processo eleitoral começar.

Nas palavras desse político, faltou cuidado do entorno do presidente da República com o tema. O próprio Motta criticou o vídeo divulgado por Veneziano, afirmando ser um ato de “desespero”.

— Deve ter esse desespero de quem está vendo a eleição. Ele (Veneziano) está enxergando o cenário na Paraíba de crescimento nosso. O governador está crescendo, está muito bem. O meu pai, na hora que começa a tracionar, ele (Veneziano) se desespera; se pega como o único bastião de sobrevivência o prestígio do presidente Lula — disse Motta a jornalistas dias após a publicação do vídeo.

Um governista que mantém conversa próxima com Motta reconhece que há essa chateação, mas fala em um incômodo que pode ser contornado. Ele diz que isso é uma questão eleitoral e não interfere no jogo político da relação entre Planalto e Congresso.

Além disso, afirma que Lula reconhece que Motta está ajudando neste momento. Um petista que atua na coordenação da pré-campanha de Lula minimizou a divulgação do vídeo e diz que, para o presidente, Motta e seu pai são aliados e deverão ser valorizados durante a campanha eleitoral, citando o fato de Nabor estar na chapa que terá apoio de Lula no estado. Ele não descarta um gesto nesse sentido do chefe da República mais adiante.

Apesar disso, segundo três interlocutores de Motta, a palavra usada pelo deputado para falar da relação com o Palácio do Planalto é “chateação”, já que ele tem atuado em sintonia com o Executivo, segurando pautas-bomba e trabalhando para que matérias de interesse tramitem na Casa, comprando desgastes internamente com deputados.

Um exemplo lembrado é o projeto de renegociação das dívidas rurais, demanda da bancada ruralista, uma das forças mais expressivas do Congresso. Motta tem negociado pessoalmente com o governo e feito reuniões para buscar um meio-termo que não gere impacto elevado nas contas públicas, contrariando os ruralistas. O presidente da Câmara foi procurado, mas não retornou.

Aliados de Motta dizem que, por ora, não há disposição do parlamentar em abrir confronto com o Executivo. Mas ressaltam que é preciso maior atenção nessa relação, assim como maior valorização do papel que o deputado tem desempenhado.

Já a relação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), é de afastamento após os senadores rejeitarem a indicação de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), impondo derrota histórica ao petista.

Nesse cenário, o Planalto tem apostado na relação com Motta para avançar com projetos de interesse no Congresso.

Motta também se queixa de não ser atendido com cargos na estrutura federal e em indicações do Judiciário. No fim do ano passado, ele foi o fiador da escolha de Gustavo Feliciano para comandar o Ministério do Turismo, com a saída de Celso Sabino, tornando-se o primeiro nome dele no primeiro escalão petista. Neste ano, já se queixou da demora para ser atendido em indicações a vagas no Judiciário.

Nesta semana, Lula enviou ao Senado a indicação do desembargador Sergio Torres Teixeira para ocupar uma vaga aberta no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Motta apoiava o nome da desembargadora Herminegilda Leite Machado, do TRT da 13ª Região, da Paraíba, para a vaga.

No mesmo dia, à tarde, Lula teve reunião com os ministros José Guimarães (Secretaria de Relações Institucionais), Wellington César Lima e Silva (Justiça e Segurança Pública), Miriam Belchior (Casa Civil) e Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para tratar das listas de indicados a vagas nos tribunais regionais. No dia seguinte, foram publicadas 21 nomeações e reconduções no Diário Oficial da União.

Segundo um ministro que acompanha as conversas, só foram tratados no encontro casos em que há consenso na indicação, deixando para um segundo momento o que ainda não está acertado. De acordo com um governista que despacha no Palácio do Planalto, Motta está trabalhando para um nome no Tribunal Regional Eleitoral do seu estado de origem.

 

Na pauta

 

Governistas reconhecem que Motta tem ajudado a destravar pautas de interesse do Planalto e de Lula e destacam, principalmente, o andamento que ele deu à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6x1. A PEC é a prioridade número um do presidente da República, diante do potencial de se tornar uma marca de sua gestão e vitrine eleitoral a ser explorada na campanha. Ela foi aprovada na Câmara no fim de maio e agora está parada no Senado.

O parlamentar também avançou com a proposta de minerais críticos e aprovou a PEC da Segurança Pública. Por outro lado, destravou a discussão da redução da maioridade penal na Câmara, o que contrariou integrantes do Executivo. Motta anunciou a criação de uma comissão especial para analisar a proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Esse tema voltou ao centro do debate no Congresso em meio à pressão por medidas mais duras na área de segurança pública. A proposta é defendida pela oposição, enquanto o governo atua para evitar que a mudança avance.

Um integrante do governo diz, sob reserva, que o Planalto queria evitar que esse tema fosse tratado antes das eleições, justamente por identificar nele a possibilidade de atacar a imagem de Lula e prejudicá-lo eleitoralmente. Ele afirma, no entanto, que o governo enxerga nessa iniciativa o jogo duplo que Motta atua desde que assumiu a presidência da Câmara: uma hora se aproxima do governo, outra hora sinaliza à oposição. Motta foi eleito com apoio de quase todos os partidos, indo do PT ao PL, e desde então se equilibra entre as demandas desses grupos políticos.

Já um líder próximo a Motta nega que isso represente uma retaliação do parlamentar diante dessa chateação com o governo. Ele diz que a pauta da redução da maioridade penal mobiliza grande parte dos deputados e que o presidente vinha sendo pressionado para dar andamento ao assunto.

Um aliado de Lula no Congresso afirma que com as trocas na Esplanada com ministros que deixaram os postos para concorrer nas eleições, o Planalto implementou dinâmica nas negociações com Motta que tem agradado ao presidente da Câmara. Semanalmente, o parlamentar se reúne com ministros como Guimarães, Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), além do líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), para discutir propostas em tramitação. Além disso, o Executivo deu celeridade aos pagamentos das emendas parlamentares, o que também foi reconhecido por Motta. 

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