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'Janonismo' inspira esquerda de outros países, enquanto presidente avalia como manter legado do 'Exército de Lula'

Por O Globo   Domingo, 1 de Novembro de 2026

A estratégia digital que o deputado federal André Janones (Rede-MG) criou para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inspirou diversos partidos e movimentos de esquerda pelo mundo na última semana. Canais análogos ao “Exército do Lula” se multiplicaram em países como Espanha, França e Argentina. No Brasil, o legado da mobilização — que conta com mais de 10 milhões de pessoas no WhatsApp — ainda é incerto, assim como a possibilidade de Janones assumir um ministério.

Além do surgimento de canais, o “general” da campanha lulista contra Flávio Bolsonaro (PL) foi convidado por dois líderes de peso, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum e o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, para visitar os países e colaborar com eles. A eleição da Espanha será realizada no dia 29 deste mês, e a próxima disputa no México está marcada para junho do ano que vem.

Na Argentina, foi criado o “Ejército del Peronismo”, que tinha 65 mil seguidores até sexta-feira. O espaço já impulsionou nos primeiros dias de funcionamento diversas mobilizações digitais contra o governo de Javier Milei, aliado de Flávio.

O França Insubmissa, partido de esquerda liderado por Jean-Luc Mélenchon no país europeu, seguiu a mesma linha e já conta com mais de 100 mil apoiadores. Na esquerda espanhola, há mais de um grupo aplicando o modelo.

 

Contra o algoritmo

 

Coordenador da Frente Ampla, que reúne diferentes movimentos de esquerda da Espanha, Eduardo Rubiño afirma que a virada de Lula despertou atenção por causa do uso arrojado do WhatsApp e da forma como “desafiou os algoritmos manipulados”. Uma das noções que Janones transmitia ao “Exército”, inclusive, era a de que os apoiadores do presidente precisavam entender como alimentar — ou não alimentar — os algoritmos das redes. Orientava, por exemplo, a não engajar em publicações de adversários, mesmo que fosse com críticas.

— Acredito que o mais inovador foi transformar os cidadãos em agentes que impulsionam a campanha. Usar o WhatsApp não apenas para transmitir informações, mas para mobilizar as pessoas e propor maneiras concretas de produzir a mudança — diz Rubiño. — Usando o humor, a linguagem da internet, as missões e os chamados à ação. Articular tudo isso usando o WhatsApp é algo que ninguém havia feito de forma semelhante e com o qual aprendemos muito.

A Frente Ampla compõe a gestão de Pedro Sánchez, que é do tradicional partido de esquerda PSOE, mas tem como cabeça de chapa na eleição deste ano a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau, outra que saudou nominalmente Lula nos últimos dias. Como o país adota o parlamentarismo, o fato de a esquerda ter mais de um candidato não significa que o governo não será composto por ambos os blocos caso consigam, juntos, formar maioria no Parlamento.

Sánchez foi um dos líderes mundiais que convidaram Janones para colaborar, e o grupo político dele criou o canal “La fuerza de la gente” (“A força das pessoas”), que até sexta-feira contava com cerca de 50 mil pessoas.

 

Campanha permanente?

 

Assim como Rubiño, a estrategista brasileira Nani Blanco, sócia-fundadora da agência Nuvem, avalia que colocar o eleitor como peça central foi a grande sacada do “Exército”.

— Ele não só criou uma mobilização, como organizou o ambiente digital transformando o eleitor em um ativo da campanha, que fazia as informações circularem. Eleição é corrida de 100 metros, então essa agilidade funciona muito — diz. — O modelo é aplicável a outros lugares, mas é importante entender qual é o nível de uso do WhatsApp, algo muito forte no Brasil, em cada país.

Daqui em diante, afirma Blanco, Lula precisa aproveitar a mobilização, o que não significa transformar o governo em uma “campanha permanente”.

— Não adianta se o Lula 4 não entregar a mudança que as pessoas querem. Apesar da reeleição, foi uma campanha que demandou mudança. O maior legado possível dessa experiência não é um governo que faça uma campanha permanente, mas que faça uma comunicação pública mais próxima da sociedade — aponta. — Os incumbentes têm enfrentado dificuldade para comunicar seus feitos.

Lula e Janones se reuniram em Brasília na quinta-feira. O nome do “general” da campanha passou a ser ventilado para ocupar um ministério no novo mandato, mas, na saída do encontro com o presidente, o deputado despistou.

— A gente vai entender onde posso somar mais com o Lula 4. Por vontade própria, não entendo que um ministério é onde posso ajudar mais, mas estou na liderança dele — disse.

Depois da vitória, o Exército passou a ser usado para causas pontuais, além de divulgar notícias sobre o próprio sucesso do canal. Uma das missões impostas nos últimos dias envolveu a divulgação de um post de Lula no Instagram em que o presidente dizia que “o dinheiro das bets está voltando para a mesa da família brasileira”.

A informação tinha como base um levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que identificou aumento de 6,5% no setor em um período de outubro deste ano na comparação com as mesmas datas em 2025.

“Olha isso, o dinheiro que ia pra sustentar o vício em jogos e enriquecer influencers, agora voltando pro povo”, escreveu Janones aos mais de 10 milhões de participantes do canal. “EXPLODAM!!!!!”

Depois, em áudio parecido com o que mandava durante a campanha com críticas a quem ajudava o outro lado do jogo a engajar, afirmou que parece que está “lidando com criança”:

— Vocês estão até agora dando palco para a extrema direita, dando palco para adversário. Esse cara (Flávio) acabou, vamos focar nisso aí ó, em fazer o bem, mostrar as ações do presidente Lula. Não é possível que vou ficar aqui todo dia falando a mesma coisa.

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