Agentes da PRF dizem que cúpula fez 'corpo mole'
Por O Globo Quarta-Feira, 2 de Novembro de 2022
A demora da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em desmobilizar os bloqueios golpistas em 21 unidades federativas, que travaram diversas rodovias pelo Brasil e já provocaram uma morte, despertou um profundo desconforto dentro da corporação.
Segundo integrantes da instituição ouvidos sob reserva, a alta cúpula da PRF já havia sido informada pelo setor de inteligência de que poderia haver mobilização de bolsonaristas nas estradas em caso de vitória de Lula.
A equipe do blog teve acesso a trocas de mensagens em grupos de policiais da corporação cujo teor indica que uma reação de apoiadores de Bolsonaro era conhecida pelo menos desde a semana passada.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/d/H/No9JiORGWq3nl8zO3eqw/101034878-pa-rio-de-janeiro-rj-01112022-caminhoneiros-bolsonaristas-fecham-o-a-acesso-a-br-101-na.jpg)
Uma delas reproduz um vídeo que circulou em grupos da PRF no dia 24, seis dias antes do segundo turno, e que trazia a seguinte legenda: “Atenção: caminhoneiros fazem convocação! 30 de outubro 22 (sic) vamos aguardar o resultado na beira das BRs”.
Estas mesmas fontes afirmam que o setor de inteligência da corporação havia identificado a mobilização, que era de conhecimento de boa parte dos agentes às vésperas da eleição.
Caminhoneiros contra a democracia: bloqueios em rodovias chegam ao segundo dia
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/3/j/oFJUEwQzWgtx4HzBID0A/101034794-pa-rio-de-janeiro-rj-01112022-caminhoneiros-bolsonaristas-fecham-o-a-acesso-a-br-101-na.jpg)
De acordo com esses depoimentos, a PRF não teria se programado para a crise com a antecedência de praxe, como ocorreu em episódios similares no passado – como por exemplo da greve de caminhoneiros de 2018 ou até mesmo a operação que parou veículos nas estradas brasileiras durante o segundo turno.
A única explicação possível para a falha, que vem sendo extensivamente discutida nos mesmos grupos de policiais nos últimos dias, é a ingerência política na corporação.
A morosidade na desobstrução das vias causou perplexidade em Brasília, a ponto do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que a polícia cumprisse sua função de pôr fim aos bloqueios sob pena de multa e até prisão do diretor-geral, Silvinei Marques, apadrinhado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O diretor da PRF chegou até a pedir voto para Bolsonaro em suas redes sociais no sábado (29), véspera do segundo turno, mas apagou a publicação após a repercussão na imprensa.
Um dos exemplos práticos de como a ingerência política pode ter afetado a reação aos bloqueios é o fato da tropa de choque da corporação, time crucial em paralisações desta natureza, não ter sido convocada ou mesmo mantida de prontidão.
./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2022/F/0/odlRQnQoAc5njFaLwAeQ/101034503-po-sao-paulo-sp-bolsonaristas-bloqueiam-rodovia-helio-smidt-maria-isabel-oiveira-.jpg)
Nós apuramos que essas equipes recebem treinamentos semestrais, são definidas previamente e mantidas de sobreaviso pela PRF justamente para agir em caso de necessidade, o que não ocorreu nesse caso. Também houve demora na convocação de reforços.
A lentidão contrasta com o aparato de peso observado em rodovias de todo o país, em especial no Nordeste, durante a votação no último domingo para, supostamente, fiscalizar veículos irregulares.
A operação convocou policiais de folga e exigiu uma grande articulação com as superintendências da PRF, ao contrário do que se viu antes do STF entrar em cena.
“Não é corpo mole, é uma verdadeira omissão”, resume um agente em posição de liderança na corporação, sob anonimato.
Por não ter realizado uma ação preventiva, afirmam os críticos, a cúpula da polícia permitiu que os bloqueios causassem grandes aglomerações, tornando difícil a dispersão dos manifestantes.
Operações de campo, como as que apuram as lideranças envolvidas para poder identificar a raiz do movimento e desmobilizá-lo, ficaram prejudicadas..
Com isso, bolsonaristas encontraram um cenário propício para a organização de bloqueios sólidos e com grande capacidade de transtorno.
Como agravante, a falta de uma força de choque e de reforços também expôs agentes da PRF que estavam nas estradas e que se viram em menor número diante de uma multidão revoltada com o resultado eleitoral.
“É nítida a conivência da alta cúpula da PRF com o bloqueio e a negligência na resposta", se recorda um ex-agente experiente da PF. "A PRF tem know-how (experiência) para esse tipo de situação. Na greve dos caminhoneiros em 2018, o Exército não quis se envolver e a PF se escondeu. A PRF foi fundamental para desbloquear as vias naquela ocasião”.
“Se existe esse know-how, por que nada foi feito? Daí vem a desconfiança de uma total falta de seriedade”.
Diante da dificuldade de conter os bloqueios, os próprios policiais passaram a gravar vídeos relatando a situação, que circularam nos grupos de WhatsApp. Em um deles, um agente no meio da multidão se exaspera e diz: “Presidente Bolsonaro, não seja irresponsável! Pelo amor de Deus, fale para esse povo sair daqui e respeitar a Justiça!”.
Nós procuramos a assessoria da PRF no fim da noite desta terça-feira (1) para questionar se a cúpula da corporação recebeu informes de inteligência indicando uma mobilização anterior ao segundo turno em caso de derrota de Bolsonaro. O espaço segue aberto em caso de resposta.