A Polícia Federal considera que as investigações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ainda estão longe da conclusão. Segundo integrantes da equipe responsável pelo caso, há um extenso volume de documentos, registros e informações obtidos por buscas e apreensões e por quebras de sigilo que permanecem sob análise. Nesse contexto, a corporação rejeitou pela segunda vez, em menos de um mês, uma proposta de colaboração premiada apresentada pelo empresário.
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, investigadores avaliam que os relatos oferecidos por Vorcaro não trouxeram elementos novos relevantes para o avanço das apurações. A avaliação interna é de que a colaboração não atende aos requisitos necessários para a celebração de um acordo.
Um integrante da equipe de investigação afirmou à reportagem que a operação "não chegou sequer à metade". A expectativa dos investigadores é de que a análise do material já apreendido revele novos elementos sobre o esquema investigado, o que reforça o entendimento de que ainda há muito trabalho a ser realizado antes da conclusão do caso.
PF vê fragilidades em proposta de colaboração
Na última quinta-feira (11), a Polícia Federal comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a rejeição da segunda tentativa de delação apresentada por Vorcaro. Segundo a corporação, o ex-dono do Banco Master não apresentou informações inéditas em relação ao que já foi descoberto pelos investigadores.
Além disso, a PF entendeu que a proposta não trouxe detalhes relevantes sobre eventuais crimes praticados por parceiros ou outros integrantes do esquema sob investigação. Para investigadores envolvidos nas negociações, uma colaboração premiada só produz resultados quando o investigado apresenta informações completas, acompanhadas de provas e capazes de ampliar o alcance das apurações.
Pessoas que participaram das conversas afirmaram à Folha, sob reserva, que a colaboração premiada é um direito da defesa, mas que seu êxito depende da disposição do investigado em apresentar informações verdadeiras e abrangentes.
Relação com Ciro Nogueira está entre os impasses
Um dos pontos de maior tensão durante as negociações envolve a relação entre Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas. Segundo interlocutores, o ex-banqueiro ainda não apresentou explicações consideradas satisfatórias sobre o tema.
De acordo com a reportagem, os investigadores já reuniram elementos independentes sobre essa relação. Mesmo assim, Vorcaro teria sustentado que os vínculos financeiros com o senador ocorreram exclusivamente por amizade.
Ciro Nogueira nega qualquer irregularidade. Após ser alvo de uma operação policial no mês passado, o parlamentar declarou: "Nunca recebi nenhum valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade que seja, nesse caso ou em qualquer outro".
Suspeitas envolvem pagamentos ao senador
Entre as linhas de investigação da Polícia Federal está a suspeita de que Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, teria realizado repasses financeiros destinados ao senador. As apurações também investigam o suposto pagamento de despesas pessoais, incluindo viagens e deslocamentos em aeronaves particulares.
Segundo a PF, Felipe Vorcaro teria participado de uma parceria "ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil".
Felipe Vorcaro chegou a ser preso temporariamente durante o andamento das investigações. As suspeitas integram um conjunto mais amplo de apurações conduzidas pela Polícia Federal e supervisionadas pelo Supremo Tribunal Federal.
Crise interna atinge equipe de defesa
As dificuldades enfrentadas por Daniel Vorcaro junto às autoridades também tiveram reflexos dentro de sua equipe jurídica. A fragilidade das informações apresentadas durante as negociações teria provocado atritos com advogados que atuavam em sua defesa.
O caso mais recente envolveu José Luis Oliveira Lima, conhecido como Juca, que deixou oficialmente a defesa em 22 de maio. Segundo relatos obtidos pela Folha, o advogado teria discutido com Vorcaro pouco antes de anunciar sua saída.
Pessoas próximas ao caso relataram que Oliveira Lima avaliava que o empresário ainda não compreendia plenamente a gravidade da situação enfrentada. Procurado pela reportagem, o criminalista preferiu não comentar o episódio.
Saídas sucessivas marcam estratégia jurídica
Na mesma conversa em que ocorreu o desentendimento, Juca também teria alertado Vorcaro sobre o risco de agravamento de sua situação caso não apresentasse às autoridades um relato completo dos crimes investigados e dos envolvidos no esquema. Segundo a reportagem, esse relato chegou a gabinetes do Supremo e ao ministro André Mendonça, relator do caso.
Além das divergências com o cliente, Oliveira Lima também enfrentou dificuldades na interlocução com o relator. Segundo a Folha, houve um desgaste entre advogado e ministro durante as tratativas relacionadas à primeira proposta de colaboração premiada.
A saída de Juca foi a mais recente de uma série de mudanças na defesa de Vorcaro. Antes dele, Walfrido Warde deixou o caso em janeiro. Em março, Pierpaolo Bottini também se afastou da equipe, alegando motivos pessoais. Roberto Podval igualmente deixou de atuar na defesa do empresário.
Investigação pode ser prorrogada
Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro do ano passado, quando tentava embarcar para o exterior pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos. A Polícia Federal suspeitou de uma tentativa de fuga, interpretação contestada pelo empresário.
Segundo sua versão, a viagem tinha como objetivo buscar investidores interessados na compra do Banco Master. Desde então, o caso ganhou novos desdobramentos e passou a mobilizar diferentes escritórios de advocacia.
Investigadores ouvidos pela Folha afirmaram que o ministro André Mendonça deverá prorrogar o prazo das investigações até que todo o material obtido nas buscas, apreensões e quebras de sigilo seja analisado. A avaliação da Polícia Federal é de que as apurações ainda estão em estágio intermediário e que novas descobertas podem surgir à medida que o conteúdo reunido for examinado.