Policiais presos movimentavam R$ 1,5 milhão em depósitos e tinham gastos em cartões incompatíveis com salário
Por Lucas Isidio - Click PB Terça-Feira, 2 de Junho de 2026
Os policiais civis presos movimentavam R$ 1,5 milhão em depósitos e tinham gastos em cartões de crédito incompatíveis com o salário. É o que apontou a investigação da Operação Perfidus, que prendeu um delegado e dois investigadores da Polícia Civil da Paraíba. A ação foi deflagrada na manhã desta terça-feira (2) para desmontar um grupo formado por agentes públicos que tomava drogas de criminosos e as comercializava.
A Polícia Civil da Paraíba e o secretário de Segurança do Estado, Jean Nunes, concederam entrevista coletiva sobre a operação, nesta terça-feira (2), na sede da Delegacia-Geral de Polícia Civil, em João Pessoa. O delegado Rafael Bianchi, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO), falou à reportagem do ClickPB sobre as investigações.
Após o recebimento de denúncia, a DRACO da Polícia Civil passou a monitorar os investigadores suspeitos. Segundo o delegado Rafael Bianchi, não foi possível pedir a quebra de sigilo do delegado Braz Morroni, único delegado investigado no caso, porque não daria tempo. Mas, ao investigar as movimentações financeiras dos dois investigadores suspeitos, foi possível perceber fluxos de dinheiro em altor valor: depósitos de até R$ 1,5 milhão e saques em dinheiro de quase R$ 1 milhão em caixas eletrônicos, o que causou surpresa à Polícia Civil.
Segundo o delegado Bianchi, os investigadores suspeitos movimentaram R$ 5 milhões em quatro anos, cada um, somando então os R$ 10 milhões citados sobre a movimentação do grupo. Eram R$ 1,5 milhão em depósitos não identificados em lotéricas e caixas de bancos e saques de aproximadamente R$ 1 milhão em dinheiro em caixas eletrônicos.
Cartões de crédito
Ainda de acordo com o delegado da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO), os investigadores tinham gastos incompatíveis no cartão de crédito em comparação com o salário recebido por eles.
“A análise fiscal comprovou que os investigadores tinham gasto anual no cartão de crédito que ultrapassava os R$ 120 mil. Se somar o salário anual deles, somente o cartão de crédito já fica incompatível com o gasto. Além das propriedades, carros, gastos diários… Então isso já demonstra disparidade entre o salário e o que estavam movimentando diariamente”, informou Rafael Bianchi.
“Também ficou constatado que o imposto de renda que ele declara tem basicamente o salário que ele recebia”, explicou o delegado, demonstrando não haver comprovação lícita da origem dessa alta renda detectada pela investigação.
Operação Perfidus
Vale destacar, antes dos demais detalhes, que o nome da operação faz referência à palavra latina ‘Perfidus’, que significa “traidor” ou “desleal”, em referência à conduta atribuída aos investigados que, segundo as apurações, teriam utilizado estruturas e prerrogativas do poder público para favorecer atividades criminosas.
A operação busca desarticular uma organização criminosa investigada pela prática de tráfico de drogas, corrupção e outros crimes correlatos. O grupo teria atuação estruturada e contaria com a participação de agentes públicos, sendo investigado o delegado Braz Morroni e outros policiais civis.
Durante a operação, foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 mandados de busca e apreensão em diferentes localidades. Também foram determinadas medidas patrimoniais que resultaram no bloqueio judicial de aproximadamente R$ 10 milhões, visando interromper o fluxo financeiro das atividades ilícitas e garantir eventual reparação dos danos causados.
As investigações apontam que integrantes da organização recebiam informações privilegiadas sobre imóveis e veículos utilizados por traficantes para armazenamento e transporte de entorpecentes. De posse desses dados, os investigados realizavam ações clandestinas, utilizando-se da condição funcional e da aparência de legalidade proporcionada pelo exercício da atividade policial.
De acordo com os elementos reunidos durante a apuração, parte das drogas localizadas nessas ações era desviada e posteriormente comercializada de forma ilícita, inclusive dentro do sistema prisional. Os lucros obtidos seriam divididos entre agentes públicos e demais integrantes da organização criminosa.
As investigações também revelaram indícios de manipulação de procedimentos policiais para conferir aparência de legalidade às ações criminosas e dificultar a identificação do esquema. Além disso, foram identificados elementos que apontam para a retirada clandestina de entorpecentes armazenados em unidade policial, oriundos de apreensões regularmente registradas.
Outro aspecto apurado foi o repasse sistemático de informações sigilosas sobre operações policiais a integrantes do tráfico de drogas, o que permitia a frustração de ações repressivas, a evasão de suspeitos e a continuidade das atividades criminosas.
As investigações seguem em andamento para aprofundamento dos fatos e responsabilização de todos os envolvidos.