Será que o Brasil vai cometer outra loucura?
Por Silvio Osias - JP Online Segunda-Feira, 14 de Setembro de 2026
1960. O Brasil elegeu Jânio Quadros. Jânio e a vassoura que usaria para varrer a bandalheira. Empossado em janeiro de 1961, renunciou sete meses depois.
1989. O Brasil elegeu Fernando Collor. Um playboy que se vendia como caçador de marajás. Empossado em março de 1990, foi impichado em dezembro de 1992.
2018. O Brasil elegeu Jair Bolsonaro. Mau militar, venceu e governou defendendo as piores ideias. Está preso, condenado por uma tentativa de golpe de estado.
2026. O presidente Lula tenta conquistar seu quarto mandato. Seu principal oponente na disputa é o senador Flávio Bolsonaro, o primogênito de Jair Bolsonaro.
Em 1960, eu era um bebê. Não tenho qualquer lembrança de Jânio presidente, mas cresci ouvindo o testemunho que quem, à época, já antevia a tragédia.
Em 1989, eu tinha 30 anos e jamais me deixaria enganar por um político como Collor. Era óbvio demais que estávamos diante de uma trágica aventura. Deu no que deu.
Em 2018, eu tinha 59 anos e enxergava nitidamente que Bolsonaro seria pior do que Jânio, pior do que Collor. Um incapaz que o Brasil botou na Presidência.
Em 2026, estou com 67 anos e torço pela vitória de Lula, mas temo que Flávio Bolsonaro vença a eleição e nos empurre para dentro de um abismo profundo.
Fui testemunha e votei nas oito eleições presidenciais que se seguiram ao término da ditadura e à transição de cinco anos conduzida pelo presidente José Sarney.
Collor venceu em 1989. Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. Lula em 2002 e 2006. Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Bolsonaro em 2018. Lula em 2022.
Teria sido normal se José Serra tivesse vencido em 2002. Ou Geraldo Alckmin em 2006. Ou José Serra em 2010. Até mesmo Aécio Neves em 2014. Todos tucanos.
As disputas entre PT e PSDB observavam os parâmetros do jogo político possível. Sei bem que nem todas as vozes da esquerda concordam, mas era assim mesmo.
Hoje, depois que tivemos Bolsonaro presidente, deveríamos ser saudosos do tempo em que Lula enfrentava Serra ou Alckmin, e Dilma enfrentava Serra ou Aécio.
Aécio, para que fique claro, era a pior face do PSDB. Migrou das lições de democracia de Tancredo Neves para a mais melancólica direitização do partido dos tucanos.
A eleição de 2026 é a mais estranha desde a volta do voto direto em 1989. É como se não houvesse campanha política, e os focos apontassem em outras direções.
O protagonismo é da crise dentro do Supremo Tribunal Federal. Ao debate sobre as questões cruciais que o país deve enfrentar foi dado o papel de coadjuvante.
Meu voto em Lula é incondicional, mas isso não me impede de concordar com a tese de que ele, aos 81 anos, poderia ter preparado outros quadros para a disputa.
A direita, do nada, surge com seus quadros. Vejam Tarcísio de Freitas, que se elegeu governador de São Paulo, vai se reeleger e já se credencia para 2030.
O campo democrático, não. Fernando Haddad, dizem que não tem carisma. Flávio Dino é levado da política para o STF. Simone Tebet não serve porque vem do agro.
Resta Lula em sua caminhada solitária. Dessa vez, não tem, no campo democrático, onde buscar apoios para um segundo turno. Só há candidatos de direita.
Um dia desses, não faz tanto tempo, tivemos José Serra, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Eduardo Campos, Simone Tebet. Gente normal da cena política.
Hoje, temos Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury. E, muito à frente de todos eles, colado em Lula, temos Flávio - Bolsonaro II, a missão.
Vi Miriam Leitão dizer que somente a Lula não é preciso perguntar sobre o compromisso com a democracia. Os demais candidatos não se dirão comprometidos.
A eleição de Flávio Bolsonaro seria uma tragédia para o Brasil. Talvez ele conseguisse algo que parecia absolutamente impossível: ser ainda pior do que foi seu pai.
Nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, estamos a 20 dias do primeiro turno. Ao saber da renúncia de Jânio, Jango, o vice, sugeriu um brinde ao imprevisível.
Agora, no atual cenário de imprevisibilidade, não cabe brinde algum. Aos que creem, talvez caiba uma oração. Para que o Brasil não seja sugado rumo à escuridão.

