Mulher larga vício de 42 anos no cigarro durante a pandemia
Por G1 Paraíba Segunda-Feira, 31 de Maio de 2021
Neste dia 31 de maio comemora-se o Dia Mundial Sem Tabaco. Para conscientizar, a história é de uma ex-fumante de Campina Grande, que deixou de fumar depois de refletir sobre a pandemia. Jaciane aires tem 57 anos e fumou por 42 anos da sua vida. No último dia 13 de maio completou três meses que ela deixou o cigarro no passado.
Em decorrência do fumo, Jaciane teve um derrame pleural, sendo internada na UTI por 17 dias, com um derrame pleural, no ano de 2019. As chances sobreviver eram poucas, mas ela sobreviveu para contar a história.
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Registro de Jaciane ao receber alta da UTI, depois de um derrame pleural em decorrência do fumo — Foto: Jaciane Aires/arquivo pessoal
Ao sair do hospital, ela teve uma recaída e se desesperou, por saber que passou pelo deserto da UTI por causa do fumo, mas se sentia fraca para conseguir parar. Mesmo depois de tudo o que passou, a decisão de parar de fumar não foi tomada de imediato. Levou cerca de dois anos para ela definitivamente deixar o vício.
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Jaciane sendo acolhida pela mãe após 17 dias internada na UTI — Foto: Jaciane Aires/Arquivo Pessoal
Para conseguir parar de fumar, Jaciane procurou ajuda e participou do Programa Nacional de Combate ao Tabagismo, que é uma iniciativa pública coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde de Campina Grande.
“O programa é muito bom, a assistência é muito grande, com uma equipe muito boa. Me incentivou muito a eu chegar onde cheguei. Foi muito bom ter participado. Tive amigas que fiz durante o programa que também me ajudaram muito quando determinei. Elas me acompanhavam por telefone, vinham no meu portão me dar apoio, porque com a pandemia elas não entravam. Eu fiquei muito mal durante o processo, mas as pessoas que me apoiaram foram essenciais”, afirmou.
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Projeto Campina livre do fumo — Foto: Coordenação do Programa Nacional de Controle ao Tabagismo/divulgação
O que motivou Jaciane a deixar o cigarro foi perceber que muitas pessoas estavam lutando por oxigênio nos hospitais, em decorrência da Covid-19.
“Eu vi muita gente precisando de oxigênio e refleti que enquanto algumas pessoas lutavam, eu tirava meu próprio oxigênio todos os dias, através do cigarro”, revelou.
Apesar de estar determinada a nunca mais fumar, esse ainda é um processo de luta diária para Jaciane. Ela contou que ainda usa adesivo de nicotina, como parte do tratamento, mas que tem se sentido motivada ao tentar ajudar outras pessoas.
“Eu mato um leão todos os dias. Não é fácil. Estou usando adesivo, mas quero tirar, estou tirando e hoje uso muito pouco adesivo. Estou usando muito o lado psicológico e, para mim, ajudar as pessoas a deixarem de fumar também me incentiva”, relatou.
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Jaciane se sente feliz e motivada depois de ter deixado o vício em cigarro — Foto: Jaciane Aires/Arquivo Pessoal
Jaciane tem uma irmã gêmea, Jaciara Aires, que também fumou por muitos anos, mas deixou e fumar há mais de 15 anos. Ela foi uma das pessoas que mais torceu para Jaciane deixar o vício, pois viu todo o sofrimento da irmã na UTI.
“A história de Jaciane é muito forte. Ela ressuscitou [na UTI]. Eu acho que ela realmente foi e voltou. A gente sofreu muito e ela também”, disse a irmã.
Jaciara deixou de fumar primeiro, mas enxerga na sua gêmea uma inspiração e disse que se quando ela decidiu parar de fumar, tivesse uma história como a dela, talvez o processo tivesse sido mais leve.
“É muito sofrimento [para deixar de fumar]. A pessoa tem que querer muito de dentro pra fora, com muita determinação [...] Os depoimentos de Jaciane ajudam muito quem é dependente. Se eu tivesse uma pessoa com a história que Jaciane tem, no período que eu decidi deixar de fumar, eu teria sofrido menos, pois eu iria fazer o tratamento, porque é muito grande a abstinência, e iria seguir mais leve”, contou.
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Irmãs gêmeas deixaram vício de cigarro e incentivam uma a outra — Foto: Jaciara Aires/Arquivo Pessoal
Em Campina Grande, a campanha Campina Livre de Fumo é realizada em 35 pontos de atendimentos, entre Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Saúde e Centro de Atenção Psicossocial (Caps), pela Secretária Municipal de Saúde, através do programa nacional.
Para participar, o fumante interessado só precisa ir até um dos locais, expressar no ato do atendimento sua vontade de parar de fumar e, a partir deste momento, inicia-se o protocolo de acompanhamento do fumante.
A coordenadora do programa, a psicóloga Byanka Andrade, explicou que o vício em tabaco pode ser inserido no cotidiano das pessoas também através de outros tipos de cigarros, como o eletrônico e o narguilé.
“Há um acúmulo de evidências que que sugerem que fumar narguilé e cigarros eletrônicos pode trazer riscos semelhantes ou mesmo maiores que outras formas do uso do tabaco. [...] O narguilé funciona como porta de entrada para o consumo de cigarros. O alerta com relação aos cigarros eletrônicos (e-cigarros) está vinculado aos efeitos de longo prazo, sobretudo comportamentais. O cigarro eletrônico é um produto eletrônico utilizado para fumar. Contém um cartucho recarregável, preenchido com um líquido composto de propilenoglicol, nicotina, substâncias aromatizantes e uma bateria”, afirmou.
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Psicóloga Byanka Andrade mediando reunião do programa — Foto: Coordenação do Programa Nacional de Controle ao Tabagismo/divulgação
Sobre o tabagismo, ela ainda explicou é considerado um transtorno mental.
“O tabagismo está classificado no grupo de Transtorno Mentais e de Comportamentos Devido ao uso de Substâncias Psicoativas. Ou seja, estamos falando de uma patologia que configura uma dependência, tanto física quanto psicológica”, contou.
Ela explicou, também, que na maioria dos casos o acompanhamento profissional é essencial para deixar o vício.
“Alguns aspectos inclusive emocionais, como a necessidade de dose cada vez maiores da substância para alcançar efeitos inicialmente alcançados antes como doses maiores, faz com que o usuário não esteja mais escolhendo usar ou não, ou seja, o uso não está mais sob seu controle. Assim, a dependência atravessa não só a dimensão física, mas também a psicológica e comportamental do sujeito”, comentou.
Mas os prejuízos do vício em cigarro não são somente psicológicos e emocionais. A saúde do corpo também é afetada.
De acordo com o médico Leonardo Salvador, que realiza acompanhamento de pacientes no Programa Nacional de Controle ao Tabagismo em Campina Grande, os problemas de saúde são divididos por grupos temporais de curto, médio e longo prazo, variando desde um aumento de pressão arterial até diversos tipos de cânceres.
Salvador explicou que o vício em cigarro tem consequências que podem afetar diretamente o paciente acometido com a Covid-19.
“No contexto da Covid-19, há diversos estudos publicados recentemente, os quais de forma harmônica relacionam tabagismo como fator de risco para gravidade no contexto desta infecção. O que se propõe é que o ambiente inflamatório pulmonar gerado pelos produtos gerados a partir do tabagismo propiciam que o SARS-COV-2 seja potencializado”, afirmou.
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Reunião da campanha Campina Livre do Fumo — Foto: Coordenação do Programa Nacional de Controle ao Tabagismo/divulgação
Para realizar o tratamento para deixar o cigarro, vários protocolos são utilizados individualmente a depender do caso de cada paciente. Alguns, inclusive, necessitam de medicamentos.
O médico explicou que é essencial que o fumante que deseja parar de fumar passe por uma consulta para avaliar a melhor estratégia.
“Existem protocolos específicos de triagem que separam os paciente que usarão medicamentos tópicos - adesivo de nicotina - e/ou sistêmicos - exemplo, Bupropiona. Cada paciente precisa passar individualmente por consulta para avaliar a melhor estratégia”, afirmou.