Rogério Caboclo diz ter sido vítima de chantagem e golpe de estado
Por Globo Esporte Quinta-Feira, 24 de Junho de 2021
Afastado da presidência da CBF por causa de uma denúncia de assédio moral e sexual, Rogério Caboclo fez nesta quarta-feira um movimento para tentar recuperar o poder. Ele enviou uma carta de quatro páginas (leia a íntegra ao fim desta reportagem) para os 27 presidentes de federações estaduais na qual defende sua própria gestão, ataca o ex-padrinho Marco Polo Del Nero e afirma ter sido vítima do que chamou de "golpe de estado".
Os destinatários da carta são exatamente aqueles que vão decidir se Caboclo será destituído ou reconduzido ao poder. A notícia do envio do documento foi publicada primeiro pelo UOL e confirmada pelo ge.
Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF no último dia 6 — Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
Na carta, Caboclo não fala especificamente sobre as acusações apresentadas por uma funcionária da CBF à comissão de ética – detalhadas em reportagens publicadas no ge e no Fantástico do dia 6 de junho. Na denúncia, ela afirma que Caboclo a chamou de "cadelinha", ofereceu-lhe biscoito de cachorro e latiu para ela. Em outro momento, o dirigente pergunta à funcionária se ela "se masturba". Caboclo afirma que vai se manifestar sobre isso "no momento oportuno e de forma específica".
Na carta desta quarta, o presidente afastado afirma ter sido procurado no dia 12 de abril por um "alto dirigente da CBF" (a quem ele não nomeia), que, portando uma "gravação clandestina", sugeriu a ele "tratar o caso com bastante cuidado".
Depois, Caboclo afirma que "terceiras pessoas, falando supostamente em nome da funcionária", exigiram inicialmente R$ 12 milhões por um acordo, e que ao final "fizeram proposta definitiva de R$ 8 milhões". A defesa da funcionária afirma que não fez pedido de dinheiro; ao contrário, que recusou uma oferta feita por Caboclo. Ele diz ainda que não cedeu à "chantagem" e preservou o caixa da CBF. Segundo o ge apurou, diretores da entidade se recusaram a endossar o acordo, que teria sido sugerido por ele.
Artilharia contra Del Nero
A carta de Rogério Caboclo para as federações estaduais dispara várias vezes contra Marco Polo Del Nero, presidente da CBF entre 2015 e 2018 e padrinho político do próprio Caboclo. Como o ge revelou na última sexta-feira, eles estão em guerra declarada. Del Nero não foi encontrado nesta quarta-feira para comentar as acusações de que é alvo. Na semana passada, ele detonou o ex-pupilo.
O presidente afastado diz ter conhecimento, "por inúmeras fontes", de que Marco Polo Del Nero "busca retomar o poder na CBF colocando no cargo de presidente alguém que obedeça às suas ordens, tudo aquilo que não obteve de mim". Caboclo afirma que Del Nero, "num exercício desesperado", tenta proibir federações estaduais, diretores e funcionários de CBF de entrar em contato com ele.
Marco Polo Del Nero foi banido pela Fifa em abril de 2018 — Foto: Lucas Figueiredo/CBF
Rogério Caboclo diz ainda estar sendo vítima de "verdadeiro golpe de estado", por parte de pessoas que ele garante saber "perfeitamente identificar" (embora não o faça na carta), com o objetivo de garantir a volta de Marco Polo Del Nero ao poder.
No texto, o dirigente escreve o que já havia declarado para diversos interlocutores: que seus diretores se insurgiram e conspiram contra ele. "Alguns deles [...] mantêm o ex-presidente (banido do futebol) no grupo de WhatsApp da diretoria da entidade". Dois diretores negaram ao ge que a informação seja verdadeira. Caboclo diz ainda que diretores participam toda segunda-feira de jogos de carteado na casa de Marco Polo Del Nero. "Dos quais asseguro que jamais participei".
A denúncia contra Caboclo
No último dia 4, uma funcionária da CBF protocolou denúncia de assédio sexual e moral contra Rogério Caboclo. O documento foi entregue à Comissão de Ética da CBF e à Diretoria de Governança e Conformidade.
Entre os fatos narrados, estão constrangimentos sofridos por ela em viagens e reuniões com o presidente e na presença de diretores da CBF. Na denúncia, a funcionária detalha o dia em que o dirigente, após sucessivos comportamentos abusivos, perguntou se ela se "masturbava". Entre outros episódios, segundo a funcionária, Caboclo tentou forçá-la a comer um biscoito de cachorro, chamando-a de "cadela".
Dois dias depois da denúncia, em 6 de junho, Caboclo foi afastado da presidência da CBF por 30 dias, por determinação da Comissão de Ética do Futebol Brasileiro. Na ocasião, a entidade informou que o processo seguiria em sigilo. Desde então, o dirigente articula nos bastidores para tentar voltar ao poder.
Após a conclusão da investigação da Comissão de Ética - caso o parecer seja pelo afastamento definitivo - a CBF deve convocar uma Assembleia Geral Administrativa para votar a destituição de Rogério Caboclo. O Código de Ética determina que as decisões da Comissão devem ser aprovadas por 3/4 do total de federações.
Ou seja: Caboclo precisa ter o apoio de 7 das 27 federações estaduais para voltar ao poder. Por pressão dos patrocinadores e também para resolver impasses internos sobre o futuro, a CBF tem como prioridade garantir que a decisão da Comissão seja referendada de forma unânime. Caso a Assembleia Geral decida votar sua destituição antes de esperar a decisão da Comissão de Ética, ou seja, o impeachment do presidente, aí são necessários 8/10 para cassar o dirigente. Ou seja: 22 dos 27 votos.
Leia a íntegra da carta de Caboclo:
"1 – Em relação à denúncia apresentada por uma funcionária da CBF, eu me resguardo o direito de me manifestar no momento oportuno e de forma específica, com a maior transparência e de acordo com a verdade dos fatos, após estar a par de todo o conteúdo da acusação, tendo em vista que tive acesso à íntegra dos autos do processo no último dia 15/06, terça-feira. Segundo alguns dos maiores advogados penalistas do país, os fatos denunciados não constituem infração penal.
2 – Embora a gravação objeto da denúncia tenha sido feita no dia 10 de março, a funcionária apresentou atestado médico pedindo afastamento, para tratamento de saúde motivado por problemas familiares, conforme atestado por ela apresentado no dia 9 de abril. No dia 12/04, segunda-feira, recebi a repentina visita de um alto dirigente da CBF portando uma gravação clandestina realizada pela denunciante, e sugerindo que eu deveria tratar o caso com bastante cuidado.
Tenho provas de que terceiras pessoas, falando supostamente em nome da funcionária, procuraram entabular negociação em que exigiram inicialmente 12 milhões de reais, à título de indenização, correspondente ao pagamento de seus vencimentos mensais até a ocasião de sua aposentadoria, ou seja, por 30 anos, mediante sua imediata demissão para que essa denúncia não fosse tornada pública. Ao final, fizeram proposta definitiva de 8 milhões de reais.
3 – O fato objetivo é um só: eu preservei o caixa da CBF e não cedi à chantagem, pois sou um dirigente seguro, corajoso e austero – como comprovam os resultados da entidade. Tenho 20 anos de atividade no futebol em cinco instituições distintas e mantenho uma trajetória absolutamente impoluta.
4 – Rejeitei a negociação e encerrei o assunto no dia 04/06/21, às 11h28, para os mesmos interlocutores que me trouxeram as propostas e que me cobravam uma posição urgente. Curiosamente, a denúncia contra mim foi protocolada no mesmo dia às 13h55.
5 – A despeito do sigilo processual decretado, a denúncia já foi veiculada pela imprensa no mesmo dia, por volta das 18h, aproveitando-se da mídia por se tratar de dia de jogo da Seleção pelas Eliminatórias para a Copa.
6 – Durante o jogo da Seleção, fui instado por um dirigente da CBF a pedir afastamento do cargo para me defender, sob a alegação de que patrocinadores poderiam romper contrato. Considerei esse fato uma ameaça. Trata-se de alegação oportunista e inverídica pelo pouco tempo decorrido entre a veiculação da notícia e o período da partida. Ainda mais por se tratar de empresas zelosas e extremamente responsáveis em relação às suas políticas internas e contratos, e conscientes dos princípios constitucionais da presunção de inocência e da ampla defesa. Até então, ninguém tinha tido acesso aos autos e nem sequer certeza da existência das acusações ou de seu conteúdo.
7 – Para minha máxima surpresa, mesmo sendo eu ocupante do cargo de presidente da CBF, fui afastado de minhas funções por 30 dias no domingo (06/06), dois dias após apresentada a denúncia, sem sequer ter sido ouvido sobre esses fatos. Foi uma decisão sem precedentes para casos análogos e que destoa dos quase 500 processos já apreciados pela Comissão de Ética até maio de 2021.
8 – Até mesmo a troca de avião da CBF, em condições extremamente vantajosas, serviu de pretexto para ataques contra minha pessoa, ignorando-se que a transação foi aprovada e assinada por todos os diretores responsáveis da entidade para esta contratação. A decisão de comprar o novo avião foi planejada por diversos meses e feita para atualizar o patrimônio da entidade. Com a transação, a CBF trocaria uma aeronave de menor tamanho e menor autonomia, do ano de 2009, por uma maior, mais moderna e de maior autonomia, ano 2015. A aeronave antiga tinha 2.550 horas voadas enquanto a nova, apenas 490 horas de voo. Sem falar de seus altos gastos de manutenção, que custaram aos cofres da entidade neste ano 370 mil dólares.
9 – Ressalto que minha relação com as seleções masculina e feminina, de todas as categorias, é excelente. Inclusive recebi mensagens de apoio e carinho de alguns dos mais importantes personagens das seleções principais masculina e feminina, e olímpica, antes e depois da tal denúncia. É notório e amplamente reconhecido que nunca nenhuma gestão da CBF trabalhou tanto e desenvolveu tão solidamente o futebol feminino. Este é o legado definitivo que demonstra meu maior e mais profundo respeito e apreço pelas mulheres e pela defesa da modalidade. É um fato inédito no mundo o comando do futebol feminino de seleções e competições estarem a cargo exclusivamente delas. Além disso, também promovi a equiparação das remunerações e premiações das seleções feminina e masculina, fato que rendeu notícia em todo mundo.
10 – Posso informar que minhas relações com as autoridades constituídas do país e com os entes internacionais do futebol sempre foram e continuarão a ser as melhores possíveis.
11 – Fui vítima de escutas ambientais e telefônicas absolutamente ilegais dentro da minha própria sala na CBF desde abril de 2018, quando fui eleito. Essas escutas foram, ao que tudo indica, instaladas por pessoas relacionadas à CBF com o intuito de controlar a entidade durante meu mandato. Áudios meus gravados dessa forma foram vazados à mídia e divulgados para me prejudicar, coincidentemente no momento em que foi deflagrada uma campanha para minha saída da CBF. Posso afirmar que essa situação foi uma das maiores decepções que tive na vida. Considerando o ambiente de desconfiança criado, posso ter me tornado uma pessoa ríspida, reservada e seletiva nas conversas internas.
12 – Para atacar minha imagem, meus detratores chegaram a difundir absurdas acusações em relação ao meu comportamento na entidade. Fatos absolutamente impossíveis de comprovação e merecedores das devidas medidas legais contra aqueles que perpetram tais ataques. O meu perfil firme, rigoroso e de resultados, que colaborou com todos os recordes administrativos e financeiros da entidade, agora serve de base para essas infundadas ilações. A CBF tinha, em 2010, um faturamento bruto de 263 milhões de reais e logo no primeiro ano da minha gestão, em 2019, o faturamento bruto alcançou 957 milhões de reais (crescimento de 264% frente uma inflação de 75% no mesmo período). O patrimônio da entidade, que em 2010 era de 229 milhões de reais, saltou para 1,248 bilhão de reais (crescimento de 445% frente uma inflação de 75%).
13 – Estou sendo vítima de verdadeira tentativa de “golpe de estado” perpetrado por pessoas que sei perfeitamente identificar e conheço bem as suas motivações e interesses, seja no campo administrativo ou de recursos humanos. Assumi o cargo de presidente da CBF em abril de 2019 e, de forma generosa e inadvertida, mantive todos os diretores da antiga gestão, sendo certo que boa parte deles hoje se insurge e conspira contra mim. Alguns deles que, por exemplo, mantêm o ex-presidente (banido do futebol) no grupo de WhatsApp da diretoria da entidade e que participam toda segunda-feira de jogos de carteado em sua casa, dos quais asseguro que jamais participei.
14 – O pior é que agora tenho conhecimento, por inúmeras fontes, que Marco Polo Del Nero, banido do futebol pela FIFA e impedido de viajar em razão do alerta internacional da INTERPOL (segundo noticiário), que responde a inúmeros processos criminais das mais diversas naturezas, em ato de ingratidão, busca retomar o poder na CBF colocando no cargo de presidente alguém que obedeça às suas ordens, tudo aquilo que não obteve de mim. Durante todas as suas gestões fui leal, responsável, zeloso e trabalhador incansável. Mas não posso me dizer surpreso, pois assim já agiu contra Eduardo José Farah, Reinaldo Carneiro Bastos, Ricardo Teixeira e José Maria Marin.
15 – Num exercício desesperado para que eu não retome o cargo de presidente, tenta-se até mesmo tolher contatos meus com federações, diretores e funcionários, no afã de gerar meu isolamento – o que, na prática, não conseguem.
16 – Tenho conhecimento de que foi instalado um regime de intimidação e “terrorismo” por alguns diretores contra funcionários dentro da entidade, com a realização de demissões, afastamentos, instalação de sistema de home office obrigatório, ameaças de demissão (inclusive por justa causa), ameaça de monitoramento por câmeras internas e rastreamento da utilização de telefones da instituição. Até mesmo práticas autoritárias como a inquirição informal de funcionários para identificar eventuais críticas ao meu comportamento ou notícias de suposto assédio foram conduzidas por diretores da entidade, como se fossem integrantes da Comissão de Ética. Práticas que podem ser identificadas como crimes. O fato é que não há nenhuma proibição, por quem quer que seja do sistema do futebol, de manter contato comigo, de acordo com o procedimento instaurado pela Comissão de Ética. Tal fato tem sido comunicado internamente como se uma regra fosse.
17 – A despeito da reiterada e desesperada estratégia de fazer crer que meu afastamento é irreversível, estou seguro e confiante de que terei, com sobra, todo o apoio necessário para que esse verdadeiro golpe contra minha pessoa, contra a CBF e contra os clubes não se concretize. Um motivo que causa revolta é a descontinuidade da minha bem-sucedida gestão até aqui e a simples notícia da perspectiva da volta de Marco Polo Del Nero ao comando do futebol brasileiro por meio de terceiros.
No programa “Bem, Amigos” da última segunda-feira (21/06), referiram-se à CBF como uma entidade atualmente acéfala, com a prática de “desmandos” internos. Abordaram a questão da possível criação de Liga de Clubes da Série A. Questionavam também com ênfase sobre as ausências de jogadores da equipe de Tite e de alguns clubes na lista olímpica do treinador André Jardine. Posso afirmar, por exemplo, que estavam sob meu comando essas composições para liberação de atletas, e que em razão do inoportuno afastamento que me foi imposto, inúmeros pré-acordos foram descumpridos e relegamos à Seleção defender a medalha de ouro olímpica sem sua principal força. Lamentavelmente, esses fatos repercutidos pela imprensa em geral demonstram a atual fragilização da imagem da CBF.
18 – Por fim, quero lembrar que tenho esposa, filho, mãe, pai, irmã e irmão, além de uma grande família, que sofrem com a injustiça e as inverdades noticiadas. Isso gera um sofrimento e uma comoção familiar que não desejo a ninguém, nem mesmo aos meus inimigos, pois não sou um homem rancoroso nem revanchista. Tenho o apoio irrestrito e diário de toda família, que tem certeza que a Justiça prevalecerá.
Deus abençoe a todos vocês e suas famílias.
Rio de Janeiro, 23 de junho de 2021
Com amizade,
Rogério Caboclo"