Raphael Bózeo mostra curiosidades de Cabo Verde, país que disputará a Copa 2026
Por Globo Esporte Quarta-Feira, 17 de Junho de 2026
As defesas do goleiro Vozinha, que ajudaram Cabo Verde a conseguir um histórico empate por 0 a 0 com a Espanha na primeira partida do país em uma Copa do Mundo repercutiram em todo o planeta e fizeram o jogador passar de 46 mil para mais de 10 milhões de seguidores em uma rede social.
Atuação que também mexeu em especial com a emoção de quem conhece o goleiro em sua intimidade, apesar do longo tempo afastado e da distância. Kleidir Dias, um dos irmãos de Vozinha, mora há quatro anos em Camaragibe, cidade da região metropolitana do Recife, onde dá aulas particulares de matemática para crianças e adolescentes cobrando R$ 80 e R$ 90 por mês.
Desde que chegou ao Brasil, Kleidir não conseguiu estar pessoalmente com o Vozinha, se comunicando apenas por videochamadas e mensagens. A primeira após a partida que alçou o irmão ao estrelato foi carregada de sentimentos. De orgulho, saudade e resiliência.
"Falei apenas que tudo o que ele tinha passado tinha um propósito"
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Vozinha criança ao lado da irmã caçula Jane e de Kleidir, em Cabo Verde — Foto: Arquivo Pessoal
Se hoje o irmão mais velho é uma celebridade do mundo do futebol, Kleidir, que é três anos mais novo, prefere se manter longe dos holofotes. Inclusive, 24 horas após o feito do irmão na Copa do Mundo, disse que teve um dia normal de trabalho, como qualquer outro. Tanto que pediu para conversar com o ge só à noite, quando "não estivesse mais ocupado".
- Quem tem que aparecer é ele, não eu - explicou. - Apenas algumas crianças vieram falar comigo dizendo que conheciam o Vozinha e eu disse que era irmão dele - completou.
Ainda assim, Kleidir reforça o lado humilde de Vozinha e da família. Adepta da mentalidade "Morabeza", palavra do crioulo cabo-verdiano que significa simplicidade, tranquilidade e acolhimento do povo do país.
Kleidir Dias, irmão do goleiro Vozinha, de Cabo Verde, que mora no Recife — Foto: Arquivo pessoal
- Em Cabo Verde não tem isso de celebridade. Após a Copa, quando ele for para casa visitar a família, vai haver festa por um ou dois dias e depois ele vai tomar banho em Laginha (uma das principais praia do país), colocar um chinelo, um short e uma camiseta e ficar com a família. Vivemos todos na simplicidade, sem ostentação, sem fama, sem vaidade- descreve Kleidir.
Apesar de não se falares pessoalmente nos últimos quatro anos, Kleidir faz questão de enfatizar a força dos laços com o irmão, de quem garante ainda ser muito próximo. E lembrou da infância na casa da avó, Maria Senhorinha dos Santos, de onde veio o apelido que "rebatizou" Josimar em Vozinha.
- Meu irmão sempre teve fome pelo futebol. Eu também jogava, mas nunca levei muito a sério. Não tinha esse talento. Mas quando tínhamos a oportunidade sempre estávamos jogando em qualquer espaço. Como no Brasil, jogávamos na rua, com quatro pedras no chão formando as balizas. Na casa da minha avô, jogávamos nos quartos, cada um em uma cama. Jogávamos a bola na parede e depois chutávamos. E ele sempre agarrava - recordou Kleidir.
Vozinha com a avó e o irmão Kleidir em Cabo Verde — Foto: Arquivo Pessoal
"Ele sempre quis ser jogador de futebol. Via isso nos olhos dele. Ele chegou onde chegou com muita dedicação e esforço. As barreiras que foram colocadas no caminho serviram para ele ultrapassar", destacou Kleidir, que veio para ao Brasil estudar teologia e escolheu o Recife porque já namorava com uma pernambucana, com a qual acabou casando.
E quando será que os dois irmãos irão finalmente se reencontrar pessoalmente? Segundo Kleidir, o mais rápido possível. Segundo dados da Fifa, há mais cabo-verdianos morando fora do país do que os 530 mil habitantes que residem nas dez ilhas que formam o arquipélago.
Raphael Bózeo mostra curiosidades de Cabo Verde, país que disputará a Copa 2026
- A emoção será a de abraçar aquele que nos pertence. Preferimos focar mais no pessoal e não nas conquistas. Para o mundo ele é o Vozinha, para nós é o Josimar. A família para nós sempre será um lugar de aconchego e acolhimento. A saudade faz parte da essência do cabo-verdiano porque a maior parte da população mora fora do país. Mas todos querem voltar um dia - diz.
Mas enquanto esse dia não chega, Kleidir terá pelo menos mais duas oportunidades de ver o irmão em ação na Copa. No próximo domingo, contra o Uruguai, e no dia 26, contra a Arábia Saudita, na última rodada da fase de grupos.
Mas até onde Cabo Verde pode chegar nesse Mundial? O irmão do goleiro da seleção responde. Com mais um lema do país.
- A gente aprende sempre que tem que dar um passo de cada vez. Todo mundo que avançar, mas o próximo passo é o Uruguai, uma das melhores seleções da América do Sul. Vamos degrau a degrau. Com o mesmo respeito, mas com o mesmo propósito. De deixar o povo cabo-verdiano alegre e orgulhoso com os Tubarões Azuis - finalizou.
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Vozinha e o time de Cabo Verde comemoram empate com a Espanha — Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko