Família Lira com 20 infectados perdeu 5 para a Covid-19
Por O Globo Quinta-Feira, 29 de Abril de 2021
Para a auxiliar de serviços gerais Ângela Moreira de Lira, de 42 anos, 2021 começou com uma via-crúcis pelo sistema de saúde, atrás de vaga, medicamento e oxigênio para os mais de 20 familiares acometidos pelo coronavírus. Ângela é moradora de Manaus, capital do Amazonas, epicentro do desastre sanitário provocado pela variante nacional no primeiro mês do ano. Sua peregrinação durou semanas e terminou com a morte de cinco integrantes da família.
O primeiro a adoecer foi o pai, Carlos Borba de Lira, de 62 anos. Em 29 de dezembro, Lira começou a sentir uma moleza estranha e procurou a unidade básica de saúde da comunidade São Sebastião da Serra Baixa, onde vivia com a mulher, um vilarejo rural de 800 habitantes em Iranduba, cidade a 25 km de Manaus. De início, os cinco testes rápidos para Covid-19 deram negativo. Só quando fez o RT-PCR, o do cotonete no nariz, testou positivo. Em 6 de janeiro, seu quadro piorou de repente e ele foi levado para o Hospital Municipal Hilda Freire.
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– O médico falava que a única luz no fim do túnel para o meu pai era uma UTI, mas não tinha vaga em canto nenhum. A gente corria atrás e tudo fechado – relembra Ângela, que chorou durante quase toda a uma hora de entrevista.
Na frente do hospital, noite e dia, pelo menos dez integrantes da família faziam vigília à espera da vaga na UTI. Àquela altura, Manaus e região atravessavam o momento mais crítico da segunda onda da pandemia, com doentes morrendo sufocados. No hospital de Iranduba, a situação não era diferente. A estudante Marcia Freitas de Lira, de 26 anos, sobrinha de Lira, conta que assim que o oxigênio do Hilda Freire estava perto de terminar ela foi com o prefeito até Manaus em busca de mais cilindros.
De volta a Iranduba, na entrada da cidade, avisaram do hospital que o recurso havia acabado. Por dez minutos, os pacientes ficaram sem oxigênio e respiraram com o auxílio de ressuscitadores manuais, conhecidos com ambú, bombeados por algum familiar. Quando os cilindros chegaram, profissionais de saúde deram as mãos e fizeram uma corrente de oração no pátio do hospital, em agradecimento.
– Esse período sem oxigênio agravou o quadro do meu tio, porque ele estava bem. Pelo menos dez pacientes do hospital vieram a óbito neste dia – afirmou Marcia.
Para garantir que o pai continuasse respirando, Ângela e a família desembolsaram R$ 950 na compra de dois cilindros. Quando finalmente conseguiu uma vaga de UTI, ela contratou uma unidade móvel para transferir o pai para Manaus, por R$ 3.500, mas o médico avaliou que seu estado de saúde era crítico demais para suportar a viagem. Lira morreu horas depois, na madrugada do dia 13.
– Ele era tudo para nós. Estamos perdidos, começando a aprender a andar de novo. Não perdi só um pai, perdi meu grande amigo – disse Ângela.
Ângela mal havia lidado com as burocracias e a dor da perda do pai e o vírus fazia novas vítimas. A variante se espalhou rapidamente pela comunidade da Serra Baixa. É ali que os Lira se encontram em datas comemorativas, como no Dia das Mães. Era o ano de 2019 e, nesse dia, eles "juntaram as panelas" e jogaram bingo. A maior motivação para a reunião era convencer a matriarca Ernestina Borba de Lira, de 84 anos, a viajar com a família para Fortaleza. Ela concordou e meses depois 40 integrantes dos Lira voaram para o Nordeste.