Meteorologista Mário Leitão considera extremista previsão de Super El Niño e pede cautela para o Semiárido
Por Vicente Conserva - 40 graus Terça-Feira, 9 de Junho de 2026
Apesar do comunicado emitido pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertando para 80% de probabilidade de um El Niño extremamente forte entre junho e agosto de 2026, com potencial para se tornar o mais intenso em cerca de 140 anos, há quem considere a previsão exagerada. É o que entende o meteorologista Mário de Miranda Vilas Boas Ramos Leitão, professor doutor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF).
Na realidade, a agência, que é ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), afirma que ainda há incerteza quanto à intensidade máxima e ao momento de pico. O cenário indica um aquecimento anômalo das águas do Pacífico tropical em níveis raramente observados.
No entanto, a maioria dos modelos de previsão sugere que ele será ao menos de intensidade moderada e possivelmente forte, tornando-se o chamado "Super El Niño". As probabilidades de que o fenômeno continue até pelo menos novembro são superiores a 90%.
O fenômeno caracteriza-se pelo aquecimento das temperaturas da superfície do oceano no Pacífico Equatorial central e oriental, e ocorre entre a cada dois a sete anos, com duração de nove a doze meses.
Segundo ele, os últimos eventos considerados fortes ocorreram em 1982 e 1998.
Mário explicou como o fenômeno tem influência ou não no semiárido nordestino.
Mesmo o fenômeno sendo moderado, ele aumenta a probabilidade de ocorrência de eventos climáticos extremos. As mudanças climáticas podem amplificar os impactos do El Niño, tendo em vista que o oceano e a atmosfera mais quentes fornecem mais energia e umidade para ondas de calor e chuvas intensas, por exemplo.
"Os impactos serão ainda mais severos, viajarão ainda mais longe e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora. A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise – acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para as energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e implementar sistemas de alerta precoce para todos", declara o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.
Segundo os organismos meteorológicos internacionais e brasileiros, o novo El Niño já está em fase de formação e sua oficialização pode ocorrer já neste mês de junho de 2026, com alta probabilidade de consolidação entre julho e agosto. As projeções mais recentes indicam que o fenômeno pode persistir até o início de 2027.
Para o Brasil, os impactos mais relevantes tendem a aparecer entre a primavera e o verão de 2026/2027, quando o El Niño normalmente influência de forma mais intensa os regimes de chuva e temperatura. No caso específico de São Paulo e do Sudeste, os efeitos costumam ser historicamente mais variáveis do que no Sul do país. O padrão mais comum é de temperaturas acima da média, enquanto os efeitos sobre as chuvas dependem da interação com outros sistemas atmosféricos.
Um aspecto importante é que, embora a formação do fenômeno esteja se tornando cada vez mais provável, a intensidade ainda não é consenso. Alguns modelos sugerem um evento moderado; outros admitem a possibilidade de um episódio forte.
Para este novo El Niño, existe uma questão particularmente interessante: o que está mobilizando a atenção dos climatologistas não é apenas a chegada do fenômeno cllimatológico, mas o fato de ele ocorrer sobre um oceano global já excepcionalmente aquecido. Isso alimenta o debate sobre até que ponto os efeitos futuros serão resultado do fenômeno natural e até que ponto refletem transformações mais amplas do sistema climático global.
Comecemos pelo que não está em discussão. O El Niño existe. Trata-se de um fenômeno climático natural, estudado há décadas, provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Seus efeitos sobre os regimes de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta são conhecidos e amplamente documentados. Negar sua existência seria tão absurdo quanto negar a ocorrência das marés ou das estações do ano.
O problema começa quando a ciência dá lugar ao espetáculo. O El Niño passou a ser apresentado, muitas vezes, não como um fenômeno climático recorrente, mas como um personagem apocalíptico capaz de explicar qualquer evento extremo. Chove demais? Culpa do El Niño. Faz calor? El Niño. Seca prolongada? El Niño novamente. A complexidade climática desaparece e surge uma narrativa simplificada, pronta para alimentar manchetes e produzir impacto emocional.
A realidade é muito menos conveniente. O clima da Terra resulta da interação de inúmeros fatores atmosféricos, oceânicos, geológicos e humanos. O El Niño é apenas uma peça desse gigantesco quebra-cabeça. Importante, sem dúvida. Determinante em alguns casos. Mas longe de ser a única variável em jogo.
Além disso, muitos dos desastres atribuídos ao clima têm raízes muito mais próximas do solo e da ação humana do que das nuvens e dos oceanos. Enchentes devastam cidades porque rios foram canalizados, várzeas foram ocupadas e sistemas de drenagem foram negligenciados. Secas produzem crises porque recursos hídricos foram mal administrados. Queimadas se tornam incontroláveis porque ecossistemas foram fragilizados por décadas de exploração predatória.