Pequenos açudes impedem recarga dos grandes mananciais e agravam crise hídrica no Sertão, alerta meteorologista
Por Célio Martinez - A Fonte Quarta-Feira, 18 de Fevereiro de 2026
Uma boa expectativa de chuvas para o período que se inicia em março no Sertão nordestino foi apresentada pelo meteorologista Dr. Mário de Miranda Vilas Boas Ramos Leitão, um dos mais renomados especialistas do país, durante entrevista ao programa Jornal da Manhã, da rádio Morada do Sol 105.9 FM, na última sexta-feira (13). Doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Mário Leitão é coordenador do Laboratório de Meteorologia da instituição, que atende consultas de mais de 70 veículos de comunicação e entidades em todo o Brasil.
Segundo o meteorologista, as probabilidades de chuvas para o semiárido nordestino são consideradas boas, porém devem ocorrer de forma espaçada, com eventos pontuais de maior intensidade. Ele ressaltou que as previsões podem ser acompanhadas em tempo quase real por meio do site oficial do laboratório, www.labmet.univasf.edu.br, onde os dados são revisados a cada 15 minutos.
Durante a entrevista, Mário Leitão também fez um alerta importante à população sobre os riscos associados às descargas elétricas, comuns nesse período chuvoso.
“Quanto mais próximo for o som do trovão, significa que mais ar a nuvem está deslocando, e um relâmpago nessas condições pode atingir até 30 milhões de volts”, explicou.
O meteorologista recomendou que as pessoas evitem sair de casa durante as tempestades e, caso estejam na rua, não permaneçam debaixo de árvores.
Ao abordar a situação dos mananciais que abastecem a cidade de Patos e a região, o especialista afirmou que o principal problema não está apenas na estiagem, mas na grande quantidade de pequenos açudes e barreiros construídos ao longo das bacias hidrográficas.
“A situação dos açudes públicos da região é muito crítica. Em 2002, quando estive em Patos como coordenador da AESA, já existiam 82 açudes construídos acima do Jatobá. Hoje, esse número já ultrapassa 100”, revelou.
De acordo com Mário Leitão, esses reservatórios acabam impedindo que a água chegue aos grandes mananciais. “Esses açudes precisam sangrar para jogar água no Riacho dos Mares, encher o Açude Tubarão e só depois chegar ao Jatobá. O mesmo ocorre com a Barragem da Farinha e outros sistemas, inclusive Coremas/Mãe d’Água”, explicou. Ele lembrou ainda que, em 2009, o Açude Jatobá só transbordou porque vários barreiros foram arrombados pela força das chuvas.
Coremas/Mãe Dágua
O meteorologista destacou que, entre 2013 e os dias atuais, mais de mil açudes foram construídos apenas na bacia de Coremas, o que, segundo ele, explica por que o principal manancial da Paraíba não consegue mais transbordar mesmo em períodos de chuvas regulares. Diante desse cenário, defendeu mudanças na legislação.
“É preciso estabelecer leis mais duras para impedir que essas construções bloqueiem a chegada da água aos mananciais que abastecem as cidades. A prioridade deve ser o atendimento às populações”, afirmou.
Como alternativa, Mário Leitão sugeriu a construção de açudes menores, porém mais profundos, e a recuperação dos reservatórios já existentes. “O Açude Jatobá perde por evaporação cerca de 58% de tudo o que acumula. Em açudes grandes e rasos, essa perda é ainda maior. O ideal é que a profundidade seja superior a três metros”, orientou, recomendando o desassoreamento dos mananciais e a redução do espelho d’água como medidas fundamentais para garantir maior segurança hídrica à região.