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Brasileiro é desenvolvimentista na economia e conservador nos costumes

Por Leonardo Attuch - Brasil 247   Sábado, 4 de Julho de 2026

A mais recente pesquisa Datafolha sobre o perfil ideológico dos brasileiros merece uma leitura que vá muito além da manchete segundo a qual a direita voltou a superar a esquerda na identificação política da população. Quando se observam os dados em profundidade, a principal conclusão é outra: o brasileiro continua sendo essencialmente desenvolvimentista na economia, mas revela posições cada vez mais conservadoras nos costumes.

Essa combinação pode parecer contraditória para quem enxerga a política a partir de categorias importadas de outras sociedades. No entanto, ela faz enorme sentido na história brasileira.

O brasileiro quer um Estado capaz de oferecer saúde pública de qualidade, educação eficiente, infraestrutura moderna, crédito para a produção, proteção ao emprego, investimentos e crescimento econômico. Em outras palavras, deseja um Estado forte nas áreas em que o mercado fracassou historicamente.

Ao mesmo tempo, manifesta crescente desconforto com aquilo que percebe como interferência excessiva em temas relacionados ao comportamento, à família, à religião ou à sexualidade. Não significa necessariamente intolerância, mas uma disposição maior para defender valores tradicionais e cobrar prioridade para problemas considerados mais urgentes, como segurança pública, renda e qualidade dos serviços públicos.

É justamente essa aparente contradição que ajuda a explicar a política brasileira das últimas décadas.

Durante os anos 1990, Fernando Henrique Cardoso costumava dizer que sonhava com um Brasil liberal na economia e liberal nos costumes. Era uma formulação coerente com a onda neoliberal que varria o mundo após o fim da Guerra Fria. A experiência brasileira, contudo, mostrou os limites desse projeto.

As privatizações, a desindustrialização, a financeirização da economia e a redução da capacidade de investimento do Estado não produziram o salto de desenvolvimento prometido. Ao contrário, o país perdeu dinamismo industrial, aumentou sua dependência da exportação de commodities e viu crescer a desigualdade regional e social.

O fracasso do receituário neoliberal produziu um efeito curioso.

Como defender abertamente a redução do Estado deixou de ser eleitoralmente atraente para grande parte da população, setores da direita e, sobretudo, da extrema direita passaram a deslocar o centro do debate para a chamada guerra cultural.

Foi nesse ambiente que ganharam força slogans como o combate ao “kit gay”, ao “banheiro unissex” e a outras pautas simbólicas que passaram a dominar campanhas eleitorais e redes sociais. Independentemente da existência concreta ou da dimensão real desses temas, eles cumpriram uma função política muito eficiente: mobilizar o eleitorado em torno de questões identitárias enquanto o verdadeiro programa econômico permanecia sendo a defesa da agenda neoliberal.

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Em outras palavras, o conservadorismo comportamental tornou-se, muitas vezes, o veículo para a implantação de um projeto econômico que dificilmente venceria eleições se fosse apresentado de forma isolada.

A pesquisa Datafolha mostra, porém, que essa estratégia não altera um dado essencial. Quando o assunto é economia, a maioria dos brasileiros continua esperando que o governo lidere os investimentos, fortaleça a infraestrutura, preserve direitos trabalhistas e ofereça serviços públicos de qualidade.

O brasileiro pode desejar menos interferência estatal em aspectos da vida privada, mas continua esperando muita presença do Estado quando o assunto é desenvolvimento nacional.

Essa talvez seja a principal lição para a esquerda brasileira.

Historicamente, foi a esquerda que defendeu a industrialização, os bancos públicos, a Petrobras, a Eletrobras, o BNDES, a ciência nacional, as universidades públicas, o SUS e os grandes projetos de infraestrutura. É esse campo político que preserva, de forma mais consistente, uma visão desenvolvimentista para o país.

Mas isso não significa que a esquerda esteja automaticamente em sintonia com a sociedade em todas as dimensões.

Se desejar construir maiorias estáveis nas próximas décadas, precisará compreender que o eleitor brasileiro não necessariamente acompanha a velocidade com que determinados debates comportamentais são formulados em setores acadêmicos, partidários ou militantes.

Isso não implica abandonar princípios democráticos, direitos individuais ou o combate à discriminação. Tampouco significa abrir mão da defesa das minorias ou da igualdade perante a lei.

Significa reconhecer que a política exige capacidade de interpretar a sociedade como ela é, e não como determinados grupos gostariam que ela fosse.

Governar um país continental como o Brasil exige construir consensos amplos em torno das prioridades nacionais. E essas prioridades continuam sendo crescimento econômico, geração de empregos, segurança pública, educação de qualidade, atendimento digno na saúde, infraestrutura moderna e oportunidades para todos.

A pesquisa do Datafolha talvez não revele uma guinada definitiva do Brasil para a direita. Ela pode estar revelando algo mais complexo e mais profundo: um país que continua desenvolvimentista na economia, mas que deseja preservar valores tradicionais na esfera privada.

Quem conseguir compreender essa combinação terá maiores condições de liderar o Brasil nas próximas décadas. Afinal, a política democrática raramente recompensa quem tenta mudar o povo; costuma premiar quem primeiro aprende a entendê-lo.

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