Claudio Lottenberg: indicado de Flávio para Saúde quer mais planos de saúde e menos SUS
Por Revista Fórum Sábado, 24 de Outubro de 2026
Durante o último debate presidencial do segundo turno, realizado nos estúdios da Band no último domingo (18), Flávio Bolsonaro prometeu levar à rede pública um “Padrão Einstein” de atendimento.
Mas as declarações sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) feitas pelo médico Cláudio Lottenberg, anunciado pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) como seu indicado para o Ministério da Saúde em um eventual governo, são bem diferentes.
As posições de Lottenberg, que já presidiu o Hospital Israelita Albert Einstein, focam em “reorganizar o SUS” para dar maior importância à tecnologia e à participação da iniciativa privada. O oftalmologista já questionou, em falas e entrevistas, a necessidade de ampliar os recursos destinados à saúde pública, e sustentou que a expansão dos planos privados pode beneficiar o sistema.
Vídeos de uma participação do médico em um debate da Fundação FHC, em 2019, voltaram a circular nas redes sociais nos últimos dias. Na ocasião, Lottenberg afirmou que não colocaria nenhum dinheiro a mais no SUS antes de “esgotar as possibilidades de melhorar a alocação dos recursos existentes”.
É importante lembrar que o financiamento do SUS durante a gestão de Bolsonaro-pai, entre 2019 e 2022, foi marcado por restrições fiscais e mudanças no modelo de repasse da Atenção Primária, além de repasses centrados em emendas.
Instituído pela Portaria nº 2.979/2019, o programa Previne Brasil alterou a lógica de repasse para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e substituiu o repasse fixo de recursos por um modelo misto, baseado no cadastro dos usuários e no pagamento por desempenho, o que gerou muitas críticas de gestores e pesquisadores por levar a perdas para municípios menores e mais vulneráveis.
O governo Bolsonaro também assinou o “Decreto das Parcerias”, que visava construir novas UBS por meio de um Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o que abria a cobertura da rede de saúde à privatização e a um modelo de gestão privada da atenção básica.
Os recursos do Fundo Nacional de Saúde (FNS) eram destinados prioritariamente por meio de emendas parlamentares, muitas delas via orçamento secreto, como em 2021. Isso ocorria de forma contrária aos critérios técnicos do SUS e atendia às articulações políticas no Congresso.
Outro ponto foi o remanejamento de verbas federais do SUS, mesmo durante a pandemia de Covid-19 (entre 2020 e 2021), para outras áreas, como as despesas militares.
Padrão Einstein?
Segundo o candidato do PL, o SUS de seu governo ofereceria um “padrão Einstein” de atendimento, com consultas com hora marcada, atendimento sem filas e maior utilização de tecnologias digitais, inteligência artificial e telemedicina. No debate presidencial da Band, em 18 de outubro, o candidato reiterou que pretende integrar informações das redes municipal, estadual, federal e privada por meio de um prontuário eletrônico associado ao Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), iniciativa que já está em curso no SUS.
Ao mesmo tempo, a principal proposta econômica do candidato é o “tesouraço”, que pretende realizar cortes de até R$ 250 bilhões nos gastos públicos. A promessa é semelhante à apresentada para a saúde: usar “inteligência artificial e tecnologia” para reduzir os gastos, além de retomar as privatizações.
Em nota técnica publicada em 2024, o Ministério da Saúde apontou que a insuficiência e a instabilidade dos recursos orçamentários do SUS, historicamente subfinanciado, condicionaram a implementação de políticas públicas de saúde ao longo das décadas. O documento também destacou que o teto de gastos instituído em 2016 restringiu a expansão das despesas primárias federais por um período prolongado.
Dados do IBGE mostram que, em 2019, as despesas de consumo final com bens e serviços de saúde no Brasil somaram R$ 711,4 bilhões, equivalentes a 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Desse total, R$ 283,6 bilhões, ou 3,8% do PIB, corresponderam a despesas do governo. Os outros R$ 427,8 bilhões, equivalentes a 5,8% do PIB, foram gastos de famílias e instituições sem fins lucrativos a serviço delas.
O levantamento também mostrou que, naquele ano, o gasto per capita das famílias e dessas instituições com saúde foi de R$ 2.035,60, ante R$ 1.349,60 em despesas governamentais por habitante.
A comparação internacional reforça a relevância de observar quem financia os gastos com saúde no Brasil. Segundo o IBGE, embora a despesa total brasileira com saúde em 2019 fosse próxima da média dos países selecionados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a participação do governo no financiamento era inferior à observada em países como Alemanha, França e Reino Unido.
Mais planos privados são solução para o SUS?
Na mesma participação, em 2019, Lottenberg defendeu que o crescimento do setor privado teria efeitos positivos sobre a rede pública.
“Quanto mais, aliás, o privado crescer, quer dizer, quanto mais houver emprego, quanto mais houver seguro-saúde, melhor é para o Sistema Único de Saúde”, afirmou.
A tese, no entanto, não resolve a questão de como a ampliação do mercado privado afetaria a distribuição de profissionais, leitos e recursos no sistema. Além disso, pessoas com planos de saúde também utilizam serviços públicos, e a existência de cobertura privada não elimina a responsabilidade do Estado por ações universais de saúde coletiva.
O aumento no número de beneficiários de planos de saúde também não garante, de forma automática, a redução da demanda pública, já que tratamentos intensivos dependem de estruturas e serviços financiados majoritariamente pelo Estado, como ocorre no tratamento do câncer.
O debate sobre o papel das empresas privadas no SUS, vale ressaltar, não é novo. A Constituição Federal de 1988 permite que instituições privadas participem de forma complementar do sistema público, mediante contrato de direito público ou convênio, com preferência para entidades filantrópicas e sem fins lucrativos. A legislação também estabelece que essa participação deve respeitar as diretrizes do SUS.
Entre as ideias associadas à atuação de Lottenberg está a revisão dos modelos de remuneração dos prestadores de serviços de saúde: em vez de pagar exclusivamente por procedimentos realizados, a proposta é atribuir maior peso aos resultados do atendimento, à qualidade assistencial e à capacidade de resolver os problemas de saúde dos pacientes.
O pagamento por procedimento remunera consultas, exames, internações e outras intervenções individualmente, o que pode incentivar justamente a prática criticada por Lottenberg: a realização de procedimentos e serviços desnecessários apenas para aumentar o volume da remuneração, sem priorizar a coordenação do cuidado e os resultados clínicos.
Um ponto importante que também tem sido alvo de críticas é a visão de Lottenberg acerca da universalidade do SUS, princípio definido constitucionalmente. Em artigo publicado no Portal Médico, do Conselho Federal de Medicina, em 2004, sob o título “Democratização da saúde pede parceria”, o médico discutiu os limites financeiros da oferta universal e defendeu a participação de diferentes agentes na organização da assistência.
No texto, ele argumenta que a expansão dos serviços e procedimentos viabilizados pela medicina contemporânea exigiria recursos muito superiores aos então disponíveis para atender a toda a população com o mesmo padrão de qualidade, o que evidencia um desafio real de financiamento. No entanto, sua abordagem também levanta questionamentos sobre as soluções propostas para enfrentar esse problema, especialmente quando envolvem a ampliação de barreiras ao acesso aos serviços.
A Lei nº 8.080, de 1990, que regulamenta o SUS, reafirma a saúde como direito fundamental e determina que o dever estatal inclui estabelecer condições para o acesso universal e igualitário. A lei também reconhece que a responsabilidade pela saúde envolve pessoas, famílias, empresas e sociedade, sem afastar a obrigação do poder público.
A universalidade não significa, é claro, que todos os pacientes devam receber exatamente o mesmo tratamento em qualquer circunstância, nem que toda tecnologia disponível no mercado precise ser incorporada imediatamente ao sistema público. Significa que o acesso não pode ser condicionado à renda, à contratação de um plano ou à capacidade individual de pagar pelo atendimento.
Em meio às propostas do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, para reorganizar a saúde pública com a ampliação do uso da inteligência artificial e aproximar o atendimento do SUS do padrão de hospitais privados de referência, com maior participação da iniciativa privada no sistema, é preciso pensar nos efeitos de uma possível privatização da rede pública de saúde.
Embora não seja essa a proposta imediata de Flávio, declarações feitas pelo indicado ao Ministério da Saúde do candidato demonstram a intenção de redirecionar menos recursos estatais e formar parcerias com prestadores privados de serviços de saúde, o que poderia afetar o modelo de financiamento e a proposta de universalidade do sistema.
O SUS pode ser privatizado?
A Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 196, que a saúde é direito de todos e dever do Estado. O texto determina que esse direito deve ser garantido por políticas sociais e econômicas destinadas a reduzir o risco de doenças e assegurar acesso universal e igualitário às ações e aos serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde.
Especialmente o artigo 198, que estabelece as diretrizes do sistema, indica a necessidade de que o SUS seja descentralizado e tenha atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas e a participação da comunidade. Já o artigo 197 determina que as ações e os serviços de saúde são de relevância pública e devem permanecer sujeitos à regulamentação, à fiscalização e ao controle do poder público.
Isso não significa, no entanto, que todos os serviços devam ser prestados diretamente por funcionários públicos ou em estabelecimentos estatais. O texto constitucional permite que a execução ocorra por meio de terceiros e de pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, de forma complementar.
A diferença está na responsabilidade pelo atendimento. O Estado pode contratar hospitais particulares, estabelecer parcerias com entidades filantrópicas ou transferir a administração de unidades a organizações sociais, mas deve respeitar a garantia do acesso universal. A questão é se isso é possível.
Quem depende do SUS no Brasil?
O alcance do sistema público ajuda a dimensionar as consequências de uma eventual mudança. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 28,5% da população brasileira tinha algum plano de saúde médico ou odontológico naquele ano. O levantamento estimou esse contingente em 59,7 milhões de pessoas.
Na mesma pesquisa, o IBGE identificou que 69,8% das pessoas que costumavam procurar o mesmo local, médico ou serviço de saúde recorriam a estabelecimentos públicos. Entre os serviços mais citados, estavam as Unidades Básicas de Saúde (UBS), porta de entrada para grande parte dos atendimentos de rotina, do acompanhamento de doenças crônicas e das ações de prevenção.
A cobertura dos planos também era profundamente desigual. Na população com rendimento mensal de até um quarto do salário mínimo, apenas 2,2% tinham plano de saúde médico; já entre as pessoas com rendimento superior a cinco salários mínimos, a proporção chegava a 86,8%.
Milhões de pessoas que podem procurar a UBS mais próxima para receber vacinas, fazer acompanhamento pré-natal ou buscar atendimento de urgência sem precisar contratar um seguro teriam de encontrar outra fonte de cobertura.
Em um modelo que transferisse para o mercado a responsabilidade hoje assumida pelo SUS, o primeiro impacto seria a necessidade de financiar diretamente uma parcela maior dos cuidados médicos.
O problema se tornaria especialmente grave diante de doenças que exigem acompanhamento prolongado ou procedimentos de alto custo, como tratamentos para câncer, hemodiálise, acompanhamento de pessoas vivendo com HIV, cirurgias complexas e uso contínuo de medicamentos.
Em um sistema predominantemente baseado em seguros privados, a cobertura provavelmente dependeria das condições contratuais, dos subsídios públicos e das regras de proteção ao consumidor.
A experiência dos EUA
O caso norte-americano ilustra muito bem os problemas de um sistema de saúde que incorpora tecnologia, mas funciona sob um modelo com forte participação privada, como propõe a equipe técnica de Flávio.
Segundo o Departamento do Censo dos Estados Unidos, 7,9% da população, equivalente a cerca de 26,7 milhões de pessoas, permaneceram sem qualquer seguro de saúde durante todo o ano de 2025. A maior parte dos norte-americanos tinha algum tipo de cobertura, mas o sistema combinava seguros privados, planos oferecidos por empregadores e programas públicos destinados a grupos específicos.
O sistema combina seguros privados, cobertura oferecida por empregadores e programas governamentais, como o Medicare e o Medicaid. O primeiro atende principalmente idosos e determinadas pessoas com deficiência; o segundo é destinado a pessoas elegíveis segundo critérios de renda e outras condições estabelecidas pela legislação federal e estadual.
Os seguros privados negociam contratos com prestadores, definem redes credenciadas e utilizam procedimentos administrativos para avaliar se determinados tratamentos serão cobertos. Os pacientes podem, entretanto, enfrentar custos diretos elevados para tratamentos complexos e dificuldades para encontrar profissionais dentro da rede credenciada.
O relatório Mirror, Mirror 2024, do Commonwealth Fund, que compara os sistemas de saúde de dez países diferentes, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Austrália e Canadá, a partir de 70 indicadores, classifica os Estados Unidos na última posição geral.
Os indicadores considerados distribuíam-se entre acesso à saúde, assistência e eficiência administrativa, equidade e resultados de saúde. O estudo apontou dificuldades de acesso e equidade no modelo norte-americano, além de resultados desfavoráveis em indicadores de saúde, apesar do nível muito superior de gastos.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os Estados Unidos destinaram 17,2% do PIB à saúde em 2024, o equivalente a US$ 14.885 por habitante, considerando as diferenças de poder de compra. A média da organização foi menor, de 9,3% do PIB e cerca de US$ 5.967 por pessoa.
O caso Luigi Mangione
O debate sobre os limites da assistência privada ganhou força após o assassinato de Brian Thompson, então presidente-executivo da UnitedHealthcare, uma das maiores seguradoras de saúde dos Estados Unidos. Thompson foi morto a tiros em Manhattan, Nova York, em 4 de dezembro de 2024.
Luigi Mangione foi acusado pelo crime e, em agosto de 2026, declarou-se culpado no processo federal, com duas acusações relacionadas à perseguição que resultou na morte de Thompson.
O caso desencadeou manifestações de hostilidade contra empresas do setor privado de saúde dos EUA. Segundo uma pesquisa do instituto NORC, da Universidade de Chicago, que entrevistou norte-americanos acerca do caso, 69% dos entrevistados atribuíram parte da responsabilidade pelo crime às negativas de cobertura das seguradoras, enquanto 67% apontaram os lucros excessivos do setor como um fator de responsabilidade.
Substituir gastos em saúde por IA
Outro foco de insatisfação nos Estados Unidos é o uso de sistemas automatizados para analisar pedidos de cobertura e autorizações prévias de procedimentos de saúde.
As seguradoras avaliam se determinado tratamento ou serviço será autorizado antes de sua realização, em um modelo que envolve a contenção de gastos e a análise da necessidade dos procedimentos. A discussão sobre o uso de ferramentas automatizadas para reorganizar serviços e controlar custos, como propõe Flávio Bolsonaro, deve se atentar aos riscos de uma adoção da inteligência artificial sem mecanismos adequados de supervisão.
As ferramentas algorítmicas, apesar de poderem acelerar processos administrativos, são alvo de críticas por decisões inadequadas na concessão de autorizações, capazes de atrasar ou impedir tratamentos necessários.
Um levantamento publicado em maio de 2026 pela KFF, organização independente de pesquisa em políticas de saúde, examinou iniciativas regulatórias federais e estaduais nos Estados Unidos sobre o uso de inteligência artificial na análise de autorizações e sinistros e identificou medidas que exigem revisão humana em determinadas decisões negativas e regras para que os sistemas considerem as circunstâncias clínicas individuais dos pacientes.
O que isso tem a ver com as propostas de Flávio Bolsonaro?
Na tentativa de elevar a saúde a um “padrão Einstein” de atendimento, com consultas agendadas, redução de filas, integração de informações clínicas e ampliação da telemedicina, inclusive com o uso da inteligência artificial para reorganizar serviços e tornar o atendimento mais eficiente, Flávio intenta cortar gastos da Saúde, pasta já historicamente subfinanciada.
No entanto, a promessa de reduzir filas sem investimento em pessoal, recursos e ampliação da cobertura corre o risco de resultar em ineficiência estrutural e de aumentar, em vez de diminuir, os gargalos já existentes no sistema de saúde.
As posições de Cláudio Lottenberg sobre financiamento e expansão dos planos privados tornam essas perguntas ainda mais relevantes, já que o médico questionou várias vezes a necessidade de ampliar os recursos destinados ao SUS e defendeu que o crescimento do setor privado poderia cobrir as demandas da rede pública.