Bolsonaro sabia da carta de militares pressionando comandantes por golpe, disse Mauro Cid
Por Malu Gaspar - O Globo Quarta-Feira, 27 de Novembro de 2024
As investigações da Polícia Federal sobre uma trama golpista para impedir a posse de Lula mostraram que o então presidente Jair Bolsonaro tinha conhecimento da elaboração de uma carta direcionada ao Comando do Exército para pressionar a adesão à intentona golpista.
A PF chegou a essa conclusão após analisar mensagens trocadas pelo tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, com o tenente-coronel do Exército Sergio Ricardo Cavaliere. Em depoimento, o ex-ajudante de ordens também confirmou que Bolsonaro tinha conhecimento da elaboração da carta.
A PF concluiu que, antes mesmo de a carta ser finalizada e divulgada, Bolsonaro já sabia de sua existência. Isso fica claro em uma troca de mensagens entre Mauro Cid e Cavaliere. Na conversa, Cavaliere pergunta “01 sabe disso?”. E Mauro Cid responde: “Sabe...”.
“As trocas de mensagens evidenciam que a confecção e disseminação da Carta com teor golpista, assinada por oficiais do Exército era de conhecimento e anuência do então presidente da República Jair Bolsonaro, sendo uma estratégia para incitar os militares e pressionar o Comando do Exército a aderir a ruptura institucional”, afirma a PF.
A intitulada “Carta ao Comandante do Exército de Oficiais Superiores da Ativa do Exército Brasileiro” tinha como objetivo pressionar o então comandante do Exército, Freire Gomes, a aderir ao golpe de Estado para manter Bolsonaro no poder, mesmo após a derrota nas eleições presidenciais de 2022.
De acordo com a investigação, o documento foi escrito em uma reunião em um salão de festas da Asa Norte, em Brasília, no dia 28 de novembro. Participaram da redação do documento, além de Mauro Cid, os militares Anderson Lima de Moura, Carlos Giovani Delevati Pasini, José Otavio Machado Rezo Cardoso, Sergio Cavaliere e Ronald Ferreira.
Após a disseminação interna do conteúdo da carta, Cavaliere encaminha para Mauro Cid uma mensagem atribuída ao comandante militar do Sul, alertando que "a adesão a esse tipo de iniciativa é inconcebível".
'Sacrifício'
“Espero que o PR não se esqueça dos que estão indo para o sacrifício”, escreve Cavaliere a Mauro Cid.
Mauro Cid envia então um áudio para o colega, confirmando que Bolsonaro tinha pleno conhecimento da situação.
“Cara, ele mesmo sabe o que é isso, né. Ele tomou vinte dias de cadeia quando era Capitão, porque escreveu carta à Veja. Foi pra Conselho de Justificação porque botaram na conta dele aquela, aquela operação pra, pra explodir Guandu, né. Se fodeu a vida toda. Então, ele sabe o que que é”, diz Cid.
O comentário é uma referência à prisão de Bolsonaro na década de 1980, quando a revista Veja revelou que ele tinha um plano que previa a explosão de bombas em quartéis e outros locais no Rio em protesto aos baixos salários nas Forças Armadas.