Blindagem a Flávio Bolsonaro: delação que inclui Dark Horse deve ser recusada e Vorcaro irá para a Papuda; entenda
Por Revista Fórum Terça-Feira, 9 de Junho de 2026
A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) estão analisando a segunda proposta de delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, entregue pelos advogados, e devem dar um parecer até a próxima sexta-feira (12). O acordo inclui menção ao suposto patrocínio ao filme Dark Horse e à relação com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com a alegação de que não houve irregularidades, versão que investigadores consideram contraditória com as provas já reunidas.
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A decisão final sobre a homologação caberá ao ministro do STF André Mendonça, relator do caso, e o prazo para uma resposta de PF e PGR se encerra nesta semana, quando também termina o acesso ampliado dos advogados ao banqueiro. A tendência é que haja uma nova recusa à proposta.
Um encontro que havia sido agendado para a quarta-feira (10) com advogados foi cancelado porque os investigadores pediram mais tempo para analisar os novos anexos.
A expectativa da defesa é que PF e PGR se pronunciem sobre a proposta até o fim desta semana, prazo que coincide com o encerramento do regime excepcional de visitas autorizado pelo ministro André Mendonça. Por determinação do relator do caso no STF, os advogados de Vorcaro puderam despachar com o banqueiro das 9h às 17h durante os dias úteis, com o objetivo de produzir a nova proposta de colaboração. A partir da segunda-feira (15), o limite volta a ser de 30 minutos diários.
A decisão final sobre a homologação do acordo não pertence à PF nem à PGR: caberá ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Mendonça tem acompanhado de perto as negociações e, na semana passada, se reuniu com a defesa de Vorcaro, com novo encontro previsto com o advogado Sérgio Leonardo, responsável pelas tratativas desde que assumiu a coordenação da defesa no fim de maio.
Blindagem a Flávio Bolsonaro e Dark Horse
O ponto mais sensível da nova proposta é a tentativa de proteger o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro produzida pelo deputado Mario Frias (PL-SP) e por Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Segundo informações do colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, Vorcaro decidiu incluir o tema na delação após a revelação de um áudio em que Flávio Bolsonaro o cobra por parte dos US$ 24 milhões prometidos para o projeto, dos quais US$ 10 milhões teriam sido transferidos ao fundo Havengate. A troca de mensagens ocorreu às vésperas da primeira prisão do banqueiro, em novembro.

A estratégia de Vorcaro é descrever o patrocínio prometido ao “irmão” Flávio como uma negociação “republicana”, sem contrapartidas e de natureza privada. A PF, no entanto, avalia que essa versão contraria fatos e provas já obtidas nas investigações. Os investigadores apuram dutos de dinheiro público transferidos ao Master por governos bolsonaristas, citando os casos do governador Cláudio Castro (PL-RJ) e do governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), além de um esquema de fraudes em empréstimos consignados operado via Credcesta. Esse conjunto de apurações, segundo a PF, contradiz a narrativa de que a relação entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro seria estritamente privada e isenta de irregularidades.
A PF apreendeu mais de oito aparelhos do banqueiro e a perícia inicial já revelou que o esquema vai além de fraudes financeiras, envolvendo corrupção, organização criminosa e uso de milícia privada para atacar adversários e acessar dados sigilosos.
Rejeição da primeira proposta e exigências da PF/PGR
A primeira versão da delação de Vorcaro, coordenada pelo advogado José Luis Oliveira Lima, foi rejeitada pela PF e recebida com reservas pela PGR. Investigadores a classificaram como “inconsistente” e “omissiva”: o material não trazia informações novas, era visto mais como uma peça de defesa do que como um conjunto de relatos com admissão de crimes, e deixava de fora referências a pessoas já identificadas pelos investigadores a partir da análise dos celulares apreendidos. A PF concluiu que Vorcaro “criou muita historinha” e evitou aprofundar temas sensíveis, especialmente os que envolviam suas conexões políticas.
Para que a nova proposta avance, PF e PGR estabeleceram condições claras. O acordo precisa apresentar informações inéditas capazes de ampliar o alcance das investigações, ser acompanhado de provas que sustentem os relatos, incluir a admissão das irregularidades praticadas pelo banqueiro e detalhar suas relações políticas, algo que não ocorreu na primeira versão. Investigadores também exigem que Vorcaro descreva o passo a passo de como movimentou bilhões por meio de uma teia de fundos nacionais e internacionais.
Outro ponto considerado fundamental é o compromisso de ressarcimento de valores. Investigadores mencionam cifras que poderiam chegar a R$ 60 bilhões, considerando os prejuízos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ao BRB e a fundos de previdência estaduais e municipais, como o RioPrevidência, que aportaram bilhões no Master antes de sua liquidação pelo Banco Central, em novembro do ano passado. A negociação da delação tem como eixo central a devolução de recursos e a comprovação de atos de ofício de autoridades citadas.
Contexto da prisão e atuação de André Mendonça
Daniel Vorcaro está com tornozeleira eletrônica e cumpre prisão na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Mesmo sob monitoramento, o banqueiro recebeu a visita de Flávio Bolsonaro em sua mansão em São Paulo, episódio que ocorreu dias antes de Flávio anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República. A visita, registrada enquanto Vorcaro estava sob vigilância da PF, reforça o peso político das relações que o banqueiro tenta agora enquadrar como “privadas” em sua proposta de delação.
Após a rejeição da primeira proposta, Vorcaro chegou a ser transferido da sala de Estado-Maior onde estava detido para uma cela comum na Superintendência, com restrições maiores de contato com advogados e espaço compartilhado com outros presos. O ministro André Mendonça, porém, autorizou seu retorno à sala especial, onde dispõe de banheiro individual e pode receber sua defesa em horários determinados. Foi também Mendonça quem autorizou o regime excepcional de visitas que permitiu a produção da nova proposta, com reuniões diárias que chegaram a durar mais de seis horas,.