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Presidente Donald Trump 'rasgou' elogios a Lula em encontro com Flávio Bolsonaro

Por O Globo   Quarta-Feira, 27 de Maio de 2026

A tentativa de Flávio Bolsonaro de transformar uma visita à Casa Branca em ativo eleitoral ganhou um constrangimento inesperado.

Durante conversa com o senador brasileiro, Donald Trump teria feito elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e demonstrado boa impressão sobre o encontro que teve com o petista no início de maio. A informação foi revelada pela jornalista Mariana Sanches, do UOL.

Segundo a apuração, Trump perguntou a Flávio o que Lula havia dito sobre a reunião anterior entre os dois presidentes. Em seguida, afirmou que Lula aparentava ser “muito velho”, mas que, ao falar e agir, passava uma impressão diferente: a de uma pessoa dinâmica e esperta.

O episódio é politicamente relevante porque ocorreu justamente em uma agenda que Flávio tentava explorar como demonstração de força internacional. O senador viajou aos Estados Unidos em meio à crise provocada pelo caso Daniel Vorcaro e buscava exibir proximidade com Trump como forma de recuperar fôlego na pré-campanha presidencial de 2026.

A Reuters registrou que Flávio foi recebido por Trump no Salão Oval, em uma reunião fechada na Casa Branca, acompanhado de Eduardo Bolsonaro e do jornalista Paulo Figueiredo. Após o encontro, o senador afirmou ter tratado de temas bilaterais como crime organizado, tarifas, terras raras e minerais críticos.

A visita, porém, acontece em um contexto ruim para Flávio. A Associated Press destacou que o senador tenta se recuperar de um escândalo envolvendo o pedido de financiamento para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, junto a Daniel Vorcaro, banqueiro investigado por fraude bilionária. Flávio nega irregularidades e sustenta que a negociação era privada e legal.

O problema é que a fotografia com Trump não apaga a crise. Ao contrário, pode reforçar uma linha de ataque que Lula e seus aliados já vinham preparando: apresentar Flávio como um candidato subordinado ao trumpismo e disposto a alinhar o Brasil aos interesses de Washington.

Essa leitura ganhou força porque Flávio foi aos EUA defender medidas duras contra facções brasileiras, incluindo a designação de grupos criminosos como organizações terroristas, pauta rejeitada pelo governo Lula por seus possíveis efeitos sobre soberania nacional, cooperação jurídica e intervenção externa em temas de segurança pública.

O elogio de Trump a Lula desmonta parte da narrativa bolsonarista. Se o objetivo era usar a Casa Branca como palco para isolar o presidente brasileiro, o resultado ficou mais ambíguo: Trump recebeu Flávio, mas também fez questão de comentar positivamente sua conversa recente com Lula.

A informação de Mariana Sanches também revela outro detalhe curioso da reunião. Trump teria passado mais de dez minutos falando sobre reformas na Casa Branca, incluindo mudanças no Rose Garden e a construção de um salão de festas, tema que causou incômodo até em setores republicanos nos Estados Unidos.

Ou seja, a conversa que o bolsonarismo tentou vender como gesto estratégico de alto nível também teve momentos de dispersão e comentários domésticos de Trump sobre obras no complexo presidencial.

Para Flávio, o saldo é delicado. Ele precisava voltar de Washington com uma imagem de força, interlocução e influência. Mas a revelação de que Trump elogiou Lula diante dele reduz o impacto simbólico da visita e cria uma cena politicamente desconfortável: o candidato bolsonarista ouvindo do líder que idolatra impressões positivas sobre seu principal adversário.

Para Lula, o episódio oferece uma vantagem narrativa. O presidente pode dizer que dialoga com Trump como chefe de Estado, enquanto Flávio busca a Casa Branca como peça de campanha. A diferença é importante: um fala em nome do Brasil; o outro tenta usar a política externa como palanque eleitoral.

A situação também reforça uma contradição do bolsonarismo. Durante anos, a direita brasileira tentou apresentar Lula como isolado internacionalmente. Mas, na prática, o petista mantém interlocução com líderes de diferentes campos ideológicos, inclusive Trump, enquanto o bolsonarismo tenta transformar alinhamento pessoal com a extrema direita norte-americana em projeto de poder.

O encontro de Flávio com Trump ainda pode render dividendos entre a base mais ideológica. Para esse público, a foto no Salão Oval tem valor simbólico. Mas, fora da bolha, a visita pode ser lida como sinal de dependência política de uma liderança estrangeira em um momento de fragilidade eleitoral.

O detalhe revelado pelo UOL pesa justamente por isso. Trump não tratou Lula como inimigo irrelevante. Ao contrário, demonstrou curiosidade sobre a conversa anterior e fez elogios à postura do presidente brasileiro.

Em uma pré-campanha marcada pelo caso Vorcaro, pela queda de Flávio em pesquisas e por dúvidas sobre sua viabilidade eleitoral, o episódio cria mais uma dificuldade. A viagem que deveria reposicionar o senador terminou produzindo uma imagem incômoda: Trump abriu as portas da Casa Branca, mas não comprou integralmente a narrativa bolsonarista contra Lula.

No fim, a cena resume a nova fase da disputa de 2026. Flávio busca apoio externo para compensar desgaste interno. Lula, mesmo atacado pela direita, aparece como interlocutor reconhecido até por Trump. E a Casa Branca, que o bolsonarismo queria transformar em trunfo, acabou entregando ao Planalto um argumento poderoso: respeito internacional não se mede por submissão, mas por capacidade de diálogo.V

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