Especialista em reprodução humana alerta que cólica não deve ser normalizada
Por Lucas Isidio - Click PB Sábado, 25 de Julho de 2026
O ginecologista e obstetra Guilherme Carvalho, especialista em reprodução humana e com atuação em João Pessoa, alerta que a cólica em mulheres não deve ser normalizada e que a endometriose não impede a gravidez. Em entrevista ao ClickPB e ao apresentador do ClickFM, Beto Rabello, o médico explicou que a cólica que a mulher aprende a suportar pode ser a doença que rouba a sua fertilidade.
O obstetra destaca o maior estudo genético já feito sobre endometriose, o qual confirma que a doença é real, sistêmica e hereditária. O estudo publicado na revista Nature Genetics, uma das mais respeitadas do mundo em Genética, analisou o DNA de cerca de 1,4 milhão de mulheres e trouxe a mais completa fotografia já produzida sobre as origens da doença. Para o ginecologista e obstetra, Guilherme Carvalho, os achados deveriam servir de alerta a todas as mulheres que, há anos, ouvem que “cólica forte é normal”.
“Esse estudo derruba, de forma definitiva, o mito de que a dor menstrual intensa é apenas parte da vida da mulher. A endometriose tem base genética, é uma doença crônica e sistêmica e não pode ser tratada como frescura, não é exagero e, muito menos, normal”, afirma o especialista.
Gravidez
O médico explica que a mulher com endometriose não está, necessariamente, infértil. Mas é preciso avaliar e cuidar.
“É um grande mito. Muitas mulheres recebem o diagnóstico de endometriose e acham que também estão recebendo o diagnóstico de infertilidade. Não necessariamente. Nem toda paciente com endometriose vai ter infertilidade. Mas toda paciente com endometriose precisa avaliar e cuidar da sua questão reprodutiva porque existe uma associação muito grande”, alertou na entrevista ao ClickPB e ClickFM.
Descobertas da ciência sobre a endometriose
A pesquisa identificou 80 regiões do genoma associadas ao risco de endometriose, sendo 37 delas inéditas, nunca antes ligadas à doença. Cinco dessas regiões também se relacionam à adenomiose, condição frequentemente associada. Ao cruzar dados de expressão genética, proteínas e marcadores celulares, os cientistas mostraram que a endometriose envolve processos de inflamação, regulação hormonal, resposta imunológica e remodelação de tecidos, o que ajuda a explicar por que a doença atinge o corpo muito além do útero.
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. Ainda assim, o diagnóstico costuma demorar anos para acontecer, muitas vezes porque os sintomas são desvalorizados até pela própria paciente, que minimiza o problema e em alguns casos, pela assistência de saúde. “O que mais me preocupa como médico é o tempo perdido. Cada ano de diagnóstico adiado é um ano em que a doença pode avançar silenciosamente e comprometer a fertilidade da mulher. Quando a paciente chega ao consultório já tentando engravidar sem sucesso, muitas vezes descobrimos uma endometriose que poderia ter sido acompanhada muito antes”, alerta Dr. Guilherme.
Novos caminhos de tratamento
Um dos resultados mais promissores do estudo foi a identificação de medicamentos já utilizados em outras áreas da Medicina, como no tratamento do câncer de mama, na contracepção e na prevenção de parto prematuro, que poderiam, no futuro, ser reaproveitados no combate à endometriose. Drº Guilherme comemora o avanço, mas faz uma ressalva firme.
“É uma notícia esperançosa, porque mostra que estamos caminhando para tratamentos mais direcionados. Mas é fundamental deixar claro: são possibilidades de pesquisa, não receitas prontas. Nenhuma mulher deve se automedicar ou buscar soluções milagrosas que circulam na internet. Cada caso é único e exige acompanhamento individualizado. A ciência está confirmando o que tantas mulheres já sentiam na pele. Agora, o compromisso precisa ser coletivo: parar de normalizar a dor e garantir que essas mulheres cheguem ao diagnóstico e ao tratamento o quanto antes. Quanto mais cedo cuidamos, mais chances preservamos, inclusive o sonho da maternidade”, conclui o especialista.