Crianças de 3 a 6 anos são 75% das vítimas de abuso sexual no Brasil em 2026
Por Brasil 247 Segunda-Feira, 10 de Agosto de 2026
O Brasil contabilizou 2.643 denúncias de abuso sexual contra crianças de zero a seis anos nos primeiros seis meses de 2026. O balanço aponta uma sutil redução de 3,36% no total de notificações em comparação ao primeiro semestre de 2025, quando foram registrados 2.735 casos, informa reportagem do Metrópoles, com base em dados extraídos do painel do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O levantamento revela uma forte e preocupante concentração de vítimas na faixa etária entre três e seis anos, que responde por cerca de 75% de todas as ocorrências na primeira infância em ambos os períodos. No recorte de 2026, esse grupo específico representou três em cada quatro casos de abuso detalhados no país.
No topo das estatísticas de 2026 estão as crianças de 5 anos de idade, que somaram 553 notificações. Já os bebês de até 1 ano contabilizaram 59 ocorrências, enquanto os recém-nascidos de até 28 dias registraram 4 casos.
Variações por idade e repercussão de casos graves
A comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026 mostra que a faixa dos 3 anos de idade apresentou uma queda expressiva nas notificações, caindo de 483 para 388 registros. O grupo de recém-nascidos de até 28 dias também teve recuo, passando de 7 para 4 casos. Em contrapartida, os registros em que a idade da vítima não foi declarada deram um salto perceptível, subindo de 128 para 186 ocorrências.
A gravidade do cenário de violência contra a primeira infância ganhou forte repercussão na mídia nacional no início de agosto, com a prisão do ator Marco Aurélio Dias Furlan, de 48 anos. Ele foi preso em flagrante no último domingo (2), em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, sob a investigação de estupro de vulnerável. A ação ocorreu após a mãe de um menino de 5 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e uma amiga ouvirem os gritos da criança e correrem até um quarto durante uma festa de aniversário em uma chácara.
Impactos no desenvolvimento e consenso científico
A diretora-executiva da organização Childhood Brasil, Lais Peretto, reforça que o abuso sexual em bebês e crianças abaixo de 5 anos atinge uma fase de extrema vulnerabilidade e de intenso desenvolvimento cerebral.
“É possível a gente identificar alguns impactos psicológicos muito fortes, como o transtorno de estresse pós-traumático, mesmo quando a criança não tem ainda a capacidade para se comunicar e nem possui uma linguagem adequada para relatar esse tipo de violência”, explica a especialista.
A soma dos dados de gênero e idade nos balanços do governo supera o total absoluto de denúncias porque um único registro pode envolver mais de uma criança ou múltiplos agressores. Como o sistema contabiliza individualmente cada par de “Vítima x Suspeito”, os dados de perfil de atendimento acabam superando o total de chamados abertos.
Disparidade de gênero e subnotificação entre meninos
No recorte por gênero, as meninas continuam sendo as principais vítimas da violência sexual na infância. No primeiro semestre de 2025, elas representavam 1.862 dos registros, enquanto no mesmo período de 2026 somaram 1.675 ocorrências, mantendo-se como a ampla maioria dos casos identificados. Os meninos foram alvo de 741 denúncias nos primeiros seis meses de 2025 e de 677 no primeiro semestre de 2026.
Outro ponto que acende o alerta das autoridades é o aumento das notificações em que o gênero da vítima não foi informado ou declarado, subindo de 155 em 2025 para 271 em 2026. Isso indica que uma parcela maior das denúncias encerrou a primeira metade do ano sem esse detalhamento essencial.
Lais Peretto destaca que a disparidade nos números também reflete um problema histórico de subnotificação, especialmente em relação ao sexo masculino.
“Os números mostram para a gente que o recorte de gênero é efetivo. Existe uma coisa também que as pesquisas nos sinalizam, que é a subnotificação dos casos de estupro contra meninos. Ela é ainda maior justamente pela cultura machista e pelo estereótipo que se tem da vítima de violência sexual”, aponta.
O papel da educação sexual e o arcabouço legal
A diretora da Childhood Brasil ressalta que, embora o país conte com um arcabouço legal consistente — como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei da Escuta Protegida, que prevê a capacitação da rede escolar para identificar sinais de violência —, a teoria precisa ser convertida de forma efetiva em políticas públicas continuadas.
“A gente precisa que também haja uma compreensão da sociedade de que a educação sexual é extremamente protetiva. Existe um equívoco ao se pensar que, ao falar de educação sexual, os adolescentes ou as crianças vão antecipar a iniciação sexual. O que acontece é justamente o oposto. Com mais informação, a gente protege”, defende Peretto.
Esclarecimento do Ministério dos Direitos Humanos
A respeito do aumento dos registros em que o gênero da vítima constava como “não informado”, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania explicou, em nota, que os dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100) são compilados estritamente com base nas informações repassadas pelo denunciante durante o atendimento telefônico.
“Nesse contexto, a classificação ‘não informado’ é utilizada quando o denunciante desconhece o gênero da vítima, não dispõe dessa informação no momento do registro ou opta por não fornecê-la. Assim, o aumento de registros nessa categoria não indica, necessariamente, alteração no perfil das vítimas nem falhas na coleta de dados”, justificou a pasta.