Pesquisadores ligam smartphones à queda histórica da natalidade em vários países
Por R7 Quinta-Feira, 11 de Junho de 2026
Dois novos estudos acadêmicos estão levantando uma hipótese que vem chamando a atenção de pesquisadores e governos ao redor do mundo: a de que a popularização dos smartphones pode ter desempenhado um papel importante na queda das taxas de natalidade registrada nas últimas duas décadas.
As pesquisas analisaram dados de mais de 120 países e apontam que o fenômeno começou justamente após 2007, ano em que o primeiro iPhone foi lançado pela Apple. Segundo os autores, a coincidência temporal não seria mero acaso.
A queda na fertilidade já vinha sendo estudada por especialistas há anos. Diversas explicações foram sugeridas, como a crise financeira global de 2008, o aumento do custo de vida, a maior escolaridade feminina, o acesso a contraceptivos e mudanças culturais. Ainda assim, nenhum fator havia conseguido explicar sozinho a dimensão global do fenômeno.
O primeiro estudo foi conduzido pela economista Caitlin Myers, do Middlebury College, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram a chegada inicial do iPhone nos Estados Unidos, aproveitando o fato de que, até 2011, o aparelho funcionava exclusivamente na rede da operadora AT&T.
Com isso, eles compararam condados norte-americanos que tinham ampla cobertura da operadora com regiões onde o sinal era limitado ou inexistente. Segundo o levantamento, as áreas com maior acesso ao iPhone registraram quedas mais acentuadas nas taxas de nascimento, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos.
Os pesquisadores estimam que o smartphone pode ter sido responsável por até metade da redução observada na fertilidade entre 2007 e 2011 nos Estados Unidos. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, a queda associada ao acesso ao aparelho variou entre 4,5% e 8%. Já entre jovens de 20 a 24 anos, a redução ficou entre 3,2% e 6,6%.
O estudo sugere que os celulares inteligentes alteraram profundamente o comportamento social dos jovens. Uma das hipóteses é que as interações presenciais passaram a ser substituídas por atividades digitais, reduzindo encontros físicos, relações sexuais e, consequentemente, gestações.
Os autores também mencionam o aumento do consumo de pornografia como possível fator relacionado. Segundo eles, o acesso facilitado a conteúdos adultos pode ter servido como substituto para relações presenciais. Outra possibilidade levantada é a de que os smartphones facilitaram o acesso a informações sobre contracepção e aborto.
A pesquisa também relaciona a popularização dos aparelhos à redução do tempo passado com amigos presencialmente. Paralelamente, os estudos apontam uma queda nas atividades sexuais entre jovens no mesmo período em que o uso dos smartphones disparou.
O segundo estudo, realizado pelos economistas Nathan Hudson e Hernan Moscoso Boedo, da Universidade de Cincinnati, também nos Estados Unidos, ampliou a análise para um cenário internacional. Os pesquisadores utilizaram dados do Banco Mundial sobre presença de smartphones e taxas de fertilidade em 128 países.
Segundo os autores, a redução no número de nascimentos acelerou justamente quando os smartphones passaram a se tornar um fenômeno de massa. O padrão foi identificado em países com contextos econômicos, culturais e sociais distintos, como Irã, México, Turquia, Chile, Costa Rica e Guatemala.
Os pesquisadores afirmam que a semelhança temporal em diferentes regiões do mundo sugere a existência de um “choque tecnológico global”. Para eles, seria improvável que fatores locais, como sistemas de saúde, leis sobre aborto, recessões econômicas ou tradições religiosas, produzissem mudanças tão parecidas em períodos tão próximos.
Nos Estados Unidos, o segundo estudo também analisou a expansão da internet banda larga e das redes móveis 4G. As conclusões indicaram que os locais com acesso mais rápido à internet registraram quedas mais aceleradas nas taxas de natalidade entre adolescentes.
Apesar das conclusões, os próprios autores afirmam que os smartphones não devem ser vistos como a única explicação para o fenômeno. Eles destacam que a redução da fertilidade é resultado de múltiplas transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas nas últimas décadas.
A preocupação com a queda nas taxas de natalidade tem crescido em diversos países. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças afirma que a fertilidade atingiu níveis historicamente baixos.
Na Ásia, economias como Japão, Coreia do Sul e China enfrentam dificuldades para conter o envelhecimento populacional. O governo chinês abandonou a política do filho único em 2016, enquanto japoneses e sul-coreanos investiram em políticas de incentivo à natalidade, mas os resultados têm sido limitados.
O fenômeno também se espalha por países de renda média, como Brasil e Índia, que vêm registrando quedas aceleradas no número de filhos por mulher. Já nações mais pobres da África Subsaariana ainda mantêm taxas elevadas de natalidade.