Sexo em locais públicos ou 'dogging': Rio tem 442 lugares apontados em plataforma de swing
Por O Globo Segunda-Feira, 19 de Janeiro de 2026
Uma plataforma de adeptos de sexo liberal e conteúdo adulto indica que o Estado do Rio tem 442 locais apontados por usuários como points para a prática do dogging, como é conhecida a atividade de fazer sexo em público e com desconhecidos. É o segundo estado no ranking, atrás apenas de São Paulo. A modalidade de busca por prazer ao ar livre reúne adeptos de grupos sociais, gêneros e orientações sexuais variados.
Por aqui, na Zona Sul, ficou famoso o fenômeno que ganhou fama nas redes sociais e no noticiário como o “Surubão do Arpoador”. O caso teve enorme repercussão quando imagens do “evento” começaram a circular nos primeiros dias de 2025. Tanto que, este ano, a prefeitura passou a proibir a visitação durante a madrugada, entre outras medidas para disciplinar o uso da área. Mas, como se vê pelo levantamento feito por quem entende do assunto, a famosa praia está longe de ser a única opção para quem busca encontros tórridos em locais públicos no Rio.
Esses picos sensuais, em que as liberdades afloram sem pudores, são tema do especial “Alquimia do prazer: recortes de um Rio oculto”, que hoje traz entrevistas com pessoas que circulam pela cidade e exploram suas possibilidades, pesquisadores em neuropsicologia, sexo e bioquímica cerebral e um sociólogo para desvelar o que pode estar por trás dessas novas — e nem tão novas — práticas.
De outros carnavais
S., tem 54 anos. Ele é um dos componentes de um casal heterossexual ouvido pelo GLOBO e diz se interessar por sexo ao ar livre desde a maioridade, há mais de três décadas.
— Sempre me atraíram essas interações mais livres, desde bem jovem — diz o frequentador da Praia da Reserva e do Mirante do Pasmado. — Com 18 anos, eu já tinha a mente assim. Eu acho que está no DNA.
No século XIX, o Rio já tinha uma de suas principais praças públicas veladamente usada para as práticas sexuais ao ar livre. O sociólogo João Otávio Galbieri, pesquisador pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), recupera o contexto e explica como o fenômeno era visto:
— Sexo em público existe há muito tempo e, em termos historiográficos, são diversos os registros em regiões da cidade. Um exemplo relacionado a homens homossexuais no Rio (grupo ao qual têm sido atribuída a prática de sexo no Arpoador) está presente no livro “Além do Carnaval”, de James Green. Ele mostra como, em 1870, a sociabilidade homoerótica que ocorria no então Largo do Rossio (atual Praça Tiradentes), foi motivo de requerimento pelo aumento do controle por parte do administrador público responsável pela área — diz Galbieri.
Segundo o pesquisador, a baixa efetividade da reclamação fez com que, cerca de oito anos depois, a questão se tornasse assunto da Secretaria de Segurança Pública daquele período e passasse a ser vista como atividade com maior necessidade de intervenção.
No Rio de 2026, após as fotos de um grupo de homens numa orgia viralizarem, a prefeitura e a Polícia Militar, numa ação conjunta, anunciaram novas regras. O cartão-postal, até dia 2 de janeiro aberto 24h, passou a funcionar como um parque municipal, com abertura ao público a partir das 4h e fechamento às 21h.
Enquanto isso, outros cantos ou mesmo cartões-postais da cidade seguem sendo explorados por diferentes grupos. Há até código para quem, em vez de combinar encontros pelas redes sociais, prefere se aventurar em encontros aleatórios. Mulheres que passeiam por esses locais e exibem tatuagem, adesivo ou colar com o símbolo de copas, por exemplo, segundo contam os praticantes, indicam que são adeptas do sexo liberal. As referências propiciam que esses aventureiros se encontrem e satisfaça, seu prazer na Praia da Reserva, em Grumari e em outros logradouros públicos mantidos em segredo pelos praticantes.
Pela letra da lei, se um casal ou grupo for visto tendo relação sexual em local público pode ser enquadrado por ato obsceno, como consta no artigo 233 do Decreto-lei nº 2.848 do Código Penal, que é de dezembro de 1940. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que, no Estado do Rio, as denúncias de atos obscenos eram 511 em 2014 e caíram para 300 até 2019 — ano pré-pandemia. De 2022 até 2024, os registros voltaram a crescer e foram de 291 a 298, mais ainda abaixo de anos anteriores.
Lari Rocha, sexóloga clínica e especialista em relações plurais e peculiares, explica que muitos fatores individuais levam ao interesse pelo dogging. Um deles é o medo, que faz liberar a adrenalina no corpo, que leva a arrepios, ao aumento da temperatura corporal e a outros efeitos físicos.
— Os motivos que fazem essas pessoas se atraírem pela prática sexual ao ar livre são: o interesse pelo proibido ou pelo exibicionismo, pela observação ou voyeurismo — diz a sexóloga, que frisa que experimentações de comportamento também se evidenciam: — É a busca por liberdade, a rebeldia, ousadia.
Há ainda regras para uma mínima organização, mesmo que o cenário para a prática seja o do proibido, diz Rocha:
— Em parques e praças, por exemplo, as pessoas vão caminhando e se encontram. Ou em áreas espaçosas aonde vão de carro: há sinais de luz de farol e posicionamento dos veículos para indicar o interesse para as outras pessoas, mostrando a importância do consentimento.
Alerta aos riscos
Uma mulher ouvida pela reportagem diz que, apesar dos avanços, sobretudo em metrópoles, há tabus, entre héteros, sobre mulheres interessadas em dogging:
— Infelizmente, tem muito julgamento a respeito.
Em março do ano passado, um homem foi assassinado no Mirante do Pasmado, cartão-postal de Botafogo, após um criminoso importunar um casal. Houve luta corporal com um frequentador do Pasmado, que foi morto. O agressor fugiu de moto.
Em nota, a Subprefeitura da Zona Sul informa que o local segue aberto ao público 24h e que a Guarda Municipal realiza rondas regulares na região, em horários alternados.
João Otávio Galbieri diz observar medidas desproporcionais entre o caso do Arpoador — que envolvia homens gays — e o do Pasmado, com um casal hétero e registro de morte:
— Sexo em espaço público de ampla circulação não cabe em qualquer situação, portanto, se aplica a lei vigente. O fato é que não se trata de todo e qualquer sexo. Esse é o mote do pânico moral que criou a medida de contenção de horário e fluxo de pessoas (no Arpoador). O sexo, por si, não é um problema público. Há muito isso ocorre. Essa é uma história de como pânicos morais orientam regras e normas de convivência, muito mais do que a preocupação necessária de que o espaço público deve acolher e respeitar a todos e todas.