Allan Simon: Globo passa Copa do Mundo correndo atrás de problemas que ela mesma criou
Por Catraca Livre Sábado, 20 de Junho de 2026
Quando a Globo reuniu a imprensa especializada em mídia esportiva no Rio de Janeiro para anunciar os detalhes da cobertura da Copa do Mundo Feminina de 2023, em 11 de julho daquele ano, uma novidade surpreendeu por se tratar da edição masculina seguinte, a que vivemos agora em 2026: a emissora renegociou o contrato com a Fifa e teria também metade dos jogos, assim como aconteceria naquele mês com a edição das mulheres.
O impacto no sentido de surpresa era óbvio, mas as consequências ainda não eram tão previsíveis. No Brasil de 2023, a Globo ainda era uma emissora dominante na TV aberta e paga com o sportv e Premiere detendo quase tudo do Brasileirão, e a CazéTV era um canal com menos de um ano de existência e sem muita certeza do que seria seu futuro.
Tanto que na época o sportv era justamente o alvo das maiores preocupações de quem acompanha o tema. A TV Globo, um canal aberto que domina a audiência há décadas, não sentiria falta de metade dos jogos da Copa do Mundo 2026, afinal, o volume de mais de 52 partidas e o fato de haver a garantia de transmissão de todos os jogos da seleção brasileira eram suficientes para justificar o movimento, feito para economizar dinheiro após tempos de pandemia.
Decisão arriscada da Globo com a Copa do Mundo
Aliás, foi na pandemia que tudo começou. Ainda em 2020, quando o próprio futuro do futebol e do mundo eram uma incógnita, a Globo abriu mão da exclusividade digital da Copa do Mundo de 2022. Naquela época, a emissora certamente pensava como a maioria de nós: quem vai querer ver um jogo pela internet se ele estará disponível ao vivo na Globo?
E não foi só a Globo: todo mundo pensou assim, tanto que a empresa contratada para vender esses direitos, a LiveMode, não conseguiu compradores. A solução foi transmitir tudo no FIFA+, streaming oficial da Fifa, e criar um canal no YouTube para usar a imagem do streamer Casimiro Miguel como chamariz de audiência. Nasceu a CazéTV, às pressas, para transmitir 22 jogos da Copa do Mundo de 2022.
A CazéTV fez história e mostrou que estávamos errados ao bater até 7 milhões de aparelhos conectados simultaneamente no YouTube, mesmo com delay em relação à transmissão da Globo, ganhando na linguagem e na facilidade de acesso uma fatia da sociedade, especialmente a mais jovem.
Se a Globo não tivesse desistido da exclusividade para 2022, a Fifa não teria contratado a LiveMode, e a CazéTV não teria surgido naquele momento. Se a Globo não tivesse renegociado o acordo de 2026 para abrir mão de metade dos jogos, a Fifa não teria colocado o pacote completo nas mãos da LiveMode.
Globo incomodada com a CazéTV
Agora, em 2026, a Globo segue reinando em termos de alcance, mas está claramente incomodada com o avanço da CazéTV. Tanto que estamos vendo a previsível guerra de narrativas de audiência, com dados do Ibope que desconsideram a importante audiência que a CazéTV tem em dispositivos móveis e são usados para diminuir os feitos do canal da LiveMode, e os dados do YouTube que não são de institutos independentes e são materiais internos de uma empresa privada. Noticiar qualquer um deles sem dar contexto é comprar narrativas dos interessados.
Mesmo assim, a Globo está incomodada porque a LiveMode seguramente leva parte importante do faturamento comercial nessa disputa por atenção dos anunciantes. E deve lembrar diariamente que esse foi um problema causado por ela própria na tentativa desenfreada de fechar as contas a qualquer custo.
O mesmo problema que fez a Libertadores parar nas mãos do SBT em 2020, numa rescisão unilateral bem mais lamentável do ponto de vista da segurança jurídica, feita pela Globo durante a paralisação do futebol.
Tanto que a emissora levou um “gelo” da Conmebol, viu a Copa América de 2021 ficar exclusiva do SBT, e precisou reconstruir as relações e abrir mão de muitas coisas (mostrar patrocinadores que não são dela, por exemplo) para retomar a competição de 2023 em diante.
O resultado prático, aliás, foi deixar o sportv fora até 2030 da Libertadores. Serão 10 anos sem a competição ao fim desse prazo. O canal pago nunca mais conseguiu voltar. Na Copa do Mundo 2026, é claramente o maior prejudicado sem os 104 jogos do torneio. É de se questionar se a TV Globo aberta abriria tantos espaços na grade, mas o sportv não ter tudo após três décadas foi um atestado de perda de relevância na mídia esportiva.
Outro problema que a Globo vem enfrentando é a concorrência do SBT, outro efeito de abrir mão não apenas de metade dos jogos, mas da exclusividade da sua própria metade também.
Graças a uma parceria com a N Sports, que tem Galvão Bueno como sócio, o narrador que foi a voz da seleção brasileira nas Copas do Mundo das últimas quatro décadas na maior emissora do país é a opção que o telespectador mais tradicional tem na TV aberta se não quiser ver os jogos na Globo.
Enquanto isso, a Globo faz um importante processo de renovação de vozes, dando espaço a nomes espetaculares na narração, como Everaldo Marques, Gustavo Villani, Paulo Andrade e Renata Silveira, esta a primeira mulher a narrar no rádio, na TV paga e na TV aberta, agora também pioneira em narrações in loco.
Mas o plano original desde a saída de Galvão Bueno das narrações foi impedido por um problema alheio às escolhas da emissora, que foi a neoplasia diagnosticada na região cervical do titular Luis Roberto.
Uma questão de saúde que não dava para prever, e que forçou uma mudança na titularidade dos jogos da seleção a poucos meses da Copa. Para se ter uma ideia, Luis fez até os amistosos de março, com Everaldo assumindo nos de maio as narrações.
Ainda assim, também podemos lembrar que naquele mesmo 2023, novamente em uma questionável decisão para economizar dinheiro, a Globo demitiu Cleber Machado e acabou com as especulações de que o pós-Galvão seria uma divisão 50/50 entre ele e Luis Roberto. O que certamente teria tornado mais fácil o processo de acostumar o ouvido do torcedor em caso de problemas com qualquer um deles.