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'A fama é uma ilusão': Padre Fábio de Melo fala sobre depressão, desejo sexual e disco

Por O Globo   Quarta-Feira, 13 de Maio de 2026

O novo disco do padre Fábio de Melo nasceu da depressão. Tudo começou com uma música de Dominguinhos, “Quem me levará sou eu”, que o resgatou do fundo do poço ao conectá-lo com a mensagem que precisava ouvir: não adiantava procurar do lado de fora, a solução para emergir estava dentro dele. A canção acabou por nortear o álbum que ele lança na sexta-feira, “O beijo que vós me nordestes”, uma ode ao Nordeste.

O trabalho traz canções de Chico César e Luiz Gonzaga, entre outros, e participações de Gilberto Gil, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Maria Rita e Elba Ramalho. Filósofo, escritor com dezenas de livros lançados, influencer com mais de 52 milhões de seguidores, cantor com 20 discos gravados e mais de cinco milhões de cópias vendidas, padre Fábio participou do “Conversa Vai, Conversa Vem”, videocast do GLOBO que vai ao ar hoje, às 18h, no YouTube e no Spotify. Confira abaixo trechos da entrevista.

Padre Fábio de Melo — Foto: Guito Moreto
Padre Fábio de Melo — Foto: Guito Moreto

O álbum é a ode de um mineiro ao Nordeste?

Sim. Embora tenha surgido com o lançamento de um disco pela Som Livre já tinha um trabalho consistente dentro da igreja. Viajava e conhecia muito o Brasil por meio da música. E o Nordeste foi uma epifania, uma experiência linda de ficar diante de uma humanidade que fazia muito sentido, toquei sentimentos que até então eram inéditos para mim, que estavam ligados à generosidade de quem me escolhia, de ser extremamente bem tratado em situações que me lembravam minha vida, a simplicidade, a pobreza material e, ao mesmo tempo, uma riqueza espiritual incomensurável. O Nordeste era uma faculdade que eu precisava frequentar. Sou mineiro meio nordestino.

Fala muito sobre a espiritualidade fora das religiões. A arte sempre foi o filtro pelo qual olhou o mundo. Seu encontro com Deus se deu através dela...

A arte foi a primeira religião que conheci. Antes de ser adepto de Jesus, fui da beleza. O cristianismo só fez sentido porque encontrei atributos aristotélicos que tornam uma realidade válida: beleza, verdade, justiça. Entendi que religião pode ser também um lugar de beleza. Tive a graça de rezar numa igreja barroca. Ficava encantado com volutas, altares. Fui entender isso como experiência religiosa.

A música ajuda a refletir sobre questões de natureza religiosa?

Com certeza. A MPB sempre fez parte do meu repertório. Fui criticado: “Como é padre e fica cantando Luiz Gonzaga?” Não acredito que música religiosa é só a composta para cantar na igreja. Religioso é tudo que religa. Somos fragmentados e precisamos de religamentos. Ele é feito pela palavra. Não é sem motivo que a terapia tem como fonte de cura a palavra. Quando fico diante de uma letra que tem o poder de alçar dentro de mim aquilo que não sei dizer, fiz uma experiência religiosa.

 

'Em muitos contextos religiosos não encontrei espiritualidade. Posso ser religioso sem espiritualidade. E também alguém dentro do contexto do ateísmo e ter uma profunda espiritualidade porque a descobri na arte, no conhecimento, na filosofia'

 

A religião não é dona da espiritualidade.

Nunca foi. Em muitos contextos religiosos não encontrei espiritualidade. Temos visão empobrecida do que é ser religioso. Espiritual é tudo que me eleva, faz transcender, entender quem sou. Posso ser religioso sem espiritualidade. E também alguém dentro do contexto do ateísmo e ter profunda espiritualidade porque a descobri na arte, no conhecimento, na filosofia. Nas principais experiências que vivi diante de Deus estava em profundo estado de miséria e tristeza. Tanto que o disco nasce por causa de uma música do Dominguinhos importantíssima na minha compreensão quando vivi a pior crise de depressão.

 

Padre Fábio de Melo e Maria Fortuna na redação de OGLOBO — Foto: Guito Moreto
Padre Fábio de Melo e Maria Fortuna na redação de OGLOBO — Foto: Guito Moreto

 

'Tenho predisposição genética à depressão, muitos suicídios na família. Durante muito tempo, convivi com isso. Mas em 2017, a casa ruiu'

 

“Quem me levará sou eu”.

É. Vivi um combo difícil de ser administrado: depressão e síndrome do pânico. Resultado da vida que vivia. Tenho predisposição genética a depressão, muitos suicídios na família. Durante muito tempo, convivi com isso. Mas em 2017, a casa ruiu. Pessoas que me amavam ficaram perto de mim, mas ninguém me socorria. Queria solidão. Aí entendi que os piores desertos eu atravesso sozinho. Foi logo após o suicídio da minha irmã.

Tem sete irmãos e todos atentaram contra a própria vida. Isso também passou pela sua cabeça?

Em 2017, era só o que queria e pensava. Com exceção de uma irmã, que morreu de acidente, todos nós tivemos episódios. Nunca tentei. Mas em muitos momentos, fiquei planejando. Em janeiro, tive uma crise muito ruim. Quando entendi que, por mais que estimulada por alguém, a luta é dentro de mim... Preciso encontrar recurso para sobreviver a mim mesmo. Quem me adoece não é o outro. Sou eu.

 

'A fama é um roubo. Primeiro, porque ela é uma ilusão'

 

O que detonou o processo? A cabeça não deu conta da vida de padre popstar?

Foi a vida pública, sim. A fama é um roubo. É uma ilusão. Rouba você daquilo que você mais ama fazer. Vai retirando a espontaneidade, privando os caminhos. O risco de se achar mais importante...

 

'Meus maiores arrependimentos foram quando identifiquei a arrogância que reprovo no outro repetida em mim'

 

Caiu nessa esparrela?

No início, sim. Meus maiores arrependimentos foram quando identifiquei a arrogância que reprovo no outro repetida em mim. Foi rápida minha visibilidade. Provocou dispersão interior. Sempre fui calmo, gostei de rotina. De repente, fazia 35 shows por mês pelo Brasil. Hoje, lido bem. Entendi que há uma medida. O tanto que sou para o outro preciso ser duas vezes para mim em termos de busca, viagem interior.

 

'Nada nos amarra mais no lugar certo que a dor. Quando minha irmã se matou, foi muito doloroso'

 

O que te trouxe de volta?

Nada nos amarra mais no lugar certo que a dor. Quando minha irmã se matou, foi muito doloroso. Ainda é. Porque é da natureza humana a culpabilidade. Mesmo sabendo que fizemos tudo o que podíamos. Foi um contexto de muito sofrimento. Foi muito cruel. Se estivesse ali, jamais me acostumaria com a ausência dela. Todo mundo tem que ser buscado. Fiquei padre por isso. Também já fui esquecido, não fui convidado. Só entrei porque forcei a porta. Às vezes, era ridicularizado: “Esse não vai dar em nada.” Vivo para buscar os que não chegaram.

 

'Fui para o seminário porque tinha uma piscina bacana. A rotina daquela casa era tão aprazível, era muito diferente da rotina dolorosa que tinha'

 

O que a epidemia da solidão no Brasil diz sobre a sociedade?

Fomos cavando um poço do qual não conseguimos mais sair. Antes, tínhamos dificuldade com pessoas da nossa rua, que davam palpite na nossa vida, nos julgavam. Ninguém suporta ser tão observado. As regras da boa educação diziam que não deveríamos parar na porta de alguém e gritar desaforos. As redes sociais quebraram isso. Não existe mais respeito ao outro. Nunca andei os seus caminhos e me sinto no direito de dizer coisas absurdas sobre você. A solidão está ligada à inconsistência dos vínculos. Temos medo de aprofundar porque entendemos que o excesso de observação do outro sobre nossa vida é doentio e nos retira as espontaneidades que deveriam ser naturais. Está todo mundo com medo do que pode ser dito, interpretado. Não podemos ter mais ninguém ao nosso lado que já criam uma narrativa.

 

'A solidão está ligada à inconsistência dos vínculos'

 

Você foi muito julgado ao demonstrar vulnerabilidades e fragilidades. Há uma visão caricata do padre, como se não fosse humano... Como se o fato de ter atravessado uma depressão não te autorizasse a dar conselhos aos que precisam...

Minha mãe era devota do Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem é a um homem com os braços abertos e o coração inteiro para fora. Perguntei à minha mãe, quando era menino: "Por que ele tem o coração para fora?". Ela, sem nenhuma teologia, me disse: "Porque não tem nada a esconder". Minha mãe me educou para ser um homem com o coração para fora. Amo com facilidade, me irrito com facilidade, tudo em mim é excesso, dói ou me alegra muito. Quando fui me tornando conhecido, só tinha uma escolha: ou vou ser de verdade ou não vou suportar. Nunca fui um homem de respostas prontas ou aceitei estar dentro de uma redoma. Sou um homem que tenta viver, acertar e erra muitas vezes. Um homem que é padre. Misturar tudo é a única forma honesta de viver. Não sou compartimentado, "agora sou padre; agora sou humano". Não existe divisão.

 

'O interesse pela repercussão está acima da ética. Hater é profissão'

 

Foi cruelmente questionado, diziam que não era padre de verdade. Como foi esse momento?

Primeiro, fiquei indignado. Como alguém que não vê meu dia a dia como padre me julga assim? Depois, entendi que não há como lutar contra, não adianta tentar explicar a quem não quer entender. Não querem a verdade, mas o clique. O interesse pela repercussão está acima da ética. Hater é profissão.

Você bombava no Twitter quando tudo era ainda mato. O que aprendeu sobre a vida nas redes lá para cá?

Toda pessoa pública é imaginada. Me imaginam ou muito pior ou melhor do que sou ou muito melhor. Nos dois extremos é ruim habitar. Queria apenas ser criticado pela verdade. Não é nenhum problema não gostarem de mim. Também não gosto de um monte de gente.

Padre Fábio de Melo — Foto: Guito Moreto
Padre Fábio de Melo — Foto: Guito Moreto

 

'A vida sexual de um padre sempre gera curiosidade. Estou acostumado'

 

Como se sentiu ao ter sua sexualidade questionada por uma deputada nas redes?

O que se pode dizer? Essa pessoa me conhece? Já participou da minha intimidade? Como posso reagir a isso? Da maneira como escolhi viver: fazendo o bem a quem puder. Se for interromper o que faço para cuidar de cada um que tem opinião sobre mim, não vou viver. Estamos transformando a vida num campo de batalha, isso nos adoece. A vida sexual de um padre sempre gera curiosidade. Estou acostumado.

A vida sexual do padre existe?

Claro! Pode não ter a vida genital, mas a sexualidade envolve todos os nossos afetos. A força da comunicação vem de onde? É sempre de sedução. Na linguagem, todos os recursos humanos se manifestam. E a isso chamamos de sexualidade também. Agora, vai ser sempre um problema... Se ando com você, estou tendo caso. Vou ser sempre vítima disso. Pra mim, não faz diferença. Me ofenderia dizer que sou mau caráter, que roubei, feri, tratei mal alguém.

Com as dificuldades que uma pessoa precisa para ser fiel ao que escolheu. A vida de um padre tem limites e possibilidades. Gosto de estudar, ler. Minha opção pela arte me ajuda a sublimar. Limitamos desejos aos carnais. Mas os desejos espirituais são maravilhosos.

 

'Muita gente acha que não deixo de ser padre porque não tenho coragem. Pelo amor de Deus!' Tenho todos os recursos para ser muitas coisas

 

Que desejos seriam esses?

Escutar boa música, ler o novo livro de Adélia Prado, ver uma série. Fui ver “Eu sou minha própria mulher”, com Edwin Luisi. Das coisas mais bonitas que já vi. Quando li Proust, “Em busca do tempo perdido”, falei: “Como a capacidade humana é capaz de criar isso?” Estou lendo novamente Dostoiévski. Acham que não deixo de ser padre porque não tenho coragem. Pelo amor de Deus! Tenho todos os recursos para ser muitas coisas. Estou sendo padre porque amo o meu ofício.

Para onde vai o seu amor, quais são os seus vínculos?

Meus vínculos principais são com pessoas que trabalham comigo. Entendi que o parentesco que de fato nos salva é o do vínculo estabelecido pela escolha. O de sangue pode não representar nada. Posso muito bem ser para a minha família um caixa eletrônico, um cartão de débito, um Pix.

Céu e inferno são aqui na Terra, já que somos responsáveis pelas nossas ações, que geram consequências?

Depois de entendermos o que a Igreja diz sobre inferno, purgatório, céu, precisamos particularizar na vida. Tenho oportunidade de criar meus purgatórios. Quando purgo o que é excessivo em mim, destilo minhas ideias, sentimentos, pensamentos e palavras, posso viver experiências de céu, construir harmonia. Do sofrimento, não precisa correr atrás, ele vem, sabe o seu endereço. A bendita da alegria não sabe onde você mora, é preciso convidá-la, bajulá-la. Todo santo dia tenho oportunidade de construir alegrias para mim e para os outros. Isso é céu. Inferno é quando opto por ser essa figura que destila o ódio. Não estou preocupado com o diabo etéreo. Mas com a minha capacidade de diabolizar uma situação. Temos sempre a opção: o que escolho fazer da vida hoje?

Já disse: “A gente reza, chora, mas treina.” Há contradição entre o sacerdócio e a vaidade, considerada pecado pela Igreja?

Ser vaidoso é tomar banho, vestir-se bem, passar perfume, manter o corpo em ordem, cortar o cabelo, fazer a barba ou exercício? Não. Vaidoso é eu me sentir melhor que você por isso. Achar que as duas faculdades e mestrados que tenho me tornam superior.

 

'Do sofrimento, não precisa correr atrás, ele vem, sabe o seu endereço. A bendita da alegria não sabe onde você mora, tem que construí-la convidá-la, bajulá-la'

 

Como enxerga a definição religiosa de Luana Piovani: "evangélica macumbeira"?

O que sei é que são correntes religiosas muito diferentes. O que temos em comum? Fazer o bem. O cristianismo precisa me ensinar a fazer o bem, as religiões de matriz africana também pretendem, o espiritismo, idem. Quando encontro a possibilidade de me identificar com o discurso religioso, é porque eu estou encontrando ali a oportunidade de fazer o bem. Isso é indiscutível e não posso questionar.

Já falou sobre ter “gente louca e diabólica com rosário na mão, vestindo batina”...

Sim. E me incluo nisso. Em muitos momentos, tive o desafio de separar minhas neuroses do meu discurso. Estudei 16 anos para ser padre, não posso ir ao encontro do povo e falar qualquer coisa. Todo discurso sobre Deus passa pelo filtro da personalidade de quem está fazendo, toda teologia tem viés, todo falar sobre Deus é também o falar sobre nós. Se não me trato com amor, se sou duro comigo, é provável que coloque você diante de um Deus tão duro quanto eu. Por isso, preciso me curar para que possa pregar de fato o Evangelho de Jesus.

Praticar o bem e o amor é o princípio, ou deveria ser, de toda religião.

Em muitos momentos, a religião aprisiona a espiritualidade. E também quis aprisionar a bondade, atributo humano. Se tem uma crença religiosa que entende que é Deus quem possibilita isso... É o meu caso... Acredito que a bondade que posso fazer já é um movimento de Deus dentro de mim. Mas não posso aprisionar a bondade. Qualquer ser humano, quando movido por aquilo que tem de melhor, é capaz de fazer o bem, mesmo que ele não acredite em Deus. Qualquer ser humano, quando movido pelo desejo de consertar o mundo, está sendo bondoso, mesmo sem se prostrar diante de um altar. E há os que se prostram diante do altar e não praticam nenhuma bondade.

Estudos apontam que, em 2049, o Brasil terá mais evangélicos que católicos no país. Como você vê o avanço da religião evangélica no país?

Religião precisa fazer sentido para mim. Se uma pessoa se encontra dentro do contexto evangélico, o que preciso pensar? Na qualidade do que nós estamos oferecendo ao povo. Será que a minha postura como padre fomenta uma religiosidade positiva, madura, que convide as pessoas a viverem o desconforto da autonomia? Ou estou propondo uma religião que prende as pessoas a mim e à minha mediação? Tudo é uma questão de questionar: Qual é a religião que as pessoas estão procurando? O que querem encontrar lá? Perguntas indigestas ou respostas prontas? Sou adepto da religião das perguntas indigestas e faço com que o meu papel seja fazer as perguntas indigestas, mesmo que também tenha dificuldade com elas.

Depois de tudo que passou, imagino que conceito sobre o divino na sua visão tenha se alargado . O que é Deus para você hoje?

Humanamente falando, Deus é tudo aquilo que me conforta, porque é ali que eu o vejo, o encontro. Tudo aquilo que me desinstala, que me conforta existencialmente mesmo desinstalado. Porque a autonomia é um desconforto enorme. Por isso, queremos evitá-la. Sempre queremos que alguém faça por nós, chore por nós. Buscamos insistentemente por alguém que seja responsável pelos nossos erros. Quando ouso trilhar o caminho da espiritualidade, que é do autoconhecimento, vou vivendo cada vez mais o esclarecimento de que sou eu. Quando me deparo com os desconfortos de ser quem eu sou, preciso do que é sagrado, porque humanamente eu não suporto. (Maria) Bethânia disse isso: "Preciso de algum delírio". Não chamaria de delírio. Pra mim, é encantamento. Preciso de encantamento: um bom livro, uma boa oração, um bom momento entre amigos. Ali, eu vejo Deus agindo em mim. Sinto concretamente a presença dele na minha vida por meio de realidades humanas.

 

 
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Publicado em Sexta-Feira, 1 de Maio de 2026
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