Marcelo Rezende escreveu muito sobre futebol para nós
Por MSN Domingo, 17 de Setembro de 2017
Claro que o principal enfoque nos obituários de Marcelo Rezende - falecido neste sábado, aos 65 anos, vítima das complicações de um câncer no pâncreas – será sobre seu trabalho na editoria policial, fazendo reportagens e apresentando programas nas TVs Globo, Record, Rede TV e Bandeirantes. Sua passagem pelo jornalismo na editoria de esportes será pouco lembrada. Injusto: de 1968, ano em que começou a carreira, até 1989, quando mudou para as reportagens policiais e políticas, o jornalista carioca teve uma passagem longa, profícua e muito elogiável pelo jornalismo esportivo.
Tal passagem se iniciou, como supracitado, em 1968, no Jornal dos Sports. De modo quase acidental: fazendo um curso técnico de mecânica, tinha um primo (Merival Júlio Lopes), que trabalhava no tradicional diário carioca das páginas rosas. Um dia, visitando a redação da publicação, ajudou um jornalista a datilografar – sem saber que era o editor-chefe do jornal. Saiu de lá com uma proposta para se tornar repórter. Aceitou. E seu destino estava traçado.
Em 1972, Marcelo se transferiu para O Globo, inicialmente focado na cobertura dos esportes amadores. Mais um ano, e tornou-se redator do caderno de esportes. Na função, revisava textos de colunistas de grosso calibre, como Nelson Rodrigues e João Saldanha. Ainda assim, não era o que ele queria, como revelou ao livro “Onde o esporte se reinventa: histórias e bastidores dos 40 anos da Placar”, dos jornalistas Marcio Kroehn e Bruno Chiarioni. Cansado de ficar na retaguarda, fazendo o que chamou de “aporrinhação”, pensou: “Eu não posso começar por onde os outros terminam, eu tenho que começar normalmente. Eu queria ser repórter!”. Em 1974, pediu a transferência para a reportagem ao editor do caderno de esportes d’O Globo, Celso Itiberê. O azar de outros colegas foi a sua sorte: após a Copa do Mundo daquele ano, parte da equipe do jornal carioca foi demitida. E Marcelo virou setorista da Seleção Brasileira.
Nessa função ficou até 1979, quando uma nova aposta virou o seu momento mais marcante na cobertura de esportes. Aposta vinda num telefonema de João Areosa, que fora seu colega n’O Globo e então era editor da revista Placar em São Paulo. Areosa disse que iria ao Rio de Janeiro para conversar com Marcelo. O diálogo era sucinto: um convite para integrar a redação da revista – que, segundo João, “tinha um probleminha: estava fechando”. Conforme contou a Márcio Kroehn e Bruno Chiarioni, Marcelo reagiu se opondo: “Porra, João, lá no esporte d’O Globo eu sou rei, João. Sou eu que viajo para tudo quanto é canto, eu que faço a Seleção e você quer me levar para uma roubada dessas? Você é maluco?!”
João ganhou algum tempo com uma evasiva: “Mas a gente vira a revista...”. Marcelo já começou a se convencer. E decidiu aceitar definitivamente ao ouvir a oferta salarial, quase três vezes mais do que ganhava n’O Globo. Estreou na Placar cobrindo os Jogos Pan-Americanos de San Juan, em 1979. Mas logo se encontraria no futebol, seu habitat natural: primeiro como repórter da sucursal fluminense da editora Abril, depois como editor da revista no Rio, o flamenguista Marcelo foi figura de destaque na Placar.
Dele foram a maioria dos textos sobre a ascensão do Flamengo no início dos anos 1980, de campeão brasileiro a campeão mundial, passando pela Copa Libertadores. Merece destaque a citação do final de “Campeão até morrer”, texto sobre o título carioca do Flamengo em 1981, já após a conquista da Libertadores – e após a morte de Cláudio Coutinho: “Olho para Carpegiani agradecendo à torcida e confundo seu rosto com o de Cláudio Coutinho, que vi tantas vezes nesse mesmo gesto de campeão. Olho Carpegiani levantar os dois braços e vejo Cláudio Coutinho sorrindo e chorando para seu povo. E só nesse instante, só agora, descubro o que é ser Flamengo até morrer”.
Aproveitando a experiência como setorista da Seleção Brasileira n’O Globo, Marcelo também trabalhou pela Placar nas Copas de 1982 e 1986. Em 1982, o trauma da derrota para a Itália foi grande, conforme o jornalista comentou ao livro sobre a história da publicação, semanal na época: “Eu lembro que saí do estádio, queria ficar sozinho. Fui andando do Sarriá até o nosso hotel, o Colón, que ficava na parte histórica, em frente à catedral que é a mais antiga de Barcelona. E eu fui a pé, literalmente a pé, chorando. Ali talvez tenha acabado o meu encanto com o futebol, até porque foi uma covardia a Seleção ter perdido. Foi um desserviço ao futebol mundial. Era como se o Guga, em seu grande momento, perdesse. E ele não perdeu no grande momento dele, porque foi tricampeão de Roland Garros”.
Em 1986, além de escrever sobre todos os jogos da Seleção, Marcelo foi dos raros repórteres a conseguir entrevistas exclusivas com Telê Santana, que teve vários problemas com a imprensa durante aquele Mundial. Ainda na Placar, Marcelo também começou a tratar do lado interno do futebol. Não só na seção De Primeira, que editava com pequenas notas de bastidores, mas com a série de reportagens O livro negro do futebol brasileiro, iniciada em março de 1985, com denúncias de falcatruas em federações de futebol pelo país.
Após oito anos da passagem vitoriosa, Marcelo seguiu para a TV Globo, em 1987. Lá, começou como repórter e editor do programa Globo Esporte. Continuou muito próximo do meio do futebol – principalmente do Flamengo, cobrindo conquistas como a Copa União de 1987. Além das várias entrevistas com Zico, também esteve em momentos marcantes como a aparição do atacante Gaúcho, defendendo dois pênaltis como goleiro improvisado, em Flamengo x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro de 1988.
Além do mais, mesmo distante da editoria de esportes, Marcelo Rezende já deixara sua marca nos 20 anos em que atuou nela. E dela tirou um aprendizado definitivo, conforme comentou ao UOL em 2013: “O jornalista esportivo é o único que vê o antes, o durante e o depois. Vê treino, jogo e vestiário. Vê se alguém participa da reunião do conselho monetário? Pode até saber o que aconteceu depois, mas durante não. O esporte tem essa vantagem. É impressionante como você acompanha tudo. O esporte foi a minha grande formação".