Relatório de Grupo de Copenhague aponta alertas de fraudes na Copa do Mundo
Por Brasil 247 Quinta-Feira, 23 de Julho de 2026
Um relatório elaborado pelo Grupo de Copenhague, um órgão consultivo internacional independente dedicado à integridade no esporte, apontou a emissão de sete alertas sobre possíveis irregularidades em apostas e potenciais manobras de manipulação de resultados durante a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026, segundo reportagem do portal The Athletic.
A revelação traz à tona uma clara divergência entre a rede internacional e a entidade máxima do futebol. Enquanto a Força-Tarefa de Integridade da Fifa publicou resultados informando que “nenhuma atividade suspeita de apostas ou indicações de manipulação de jogos” foi identificada em qualquer uma das 104 partidas do torneio, o Grupo de Copenhague detalhou ter registrado sete “alertas amarelos” em seu monitoramento próprio.
Operando sob a Convenção de Macolin do Conselho da Europa — um tratado multilateral que busca combater a manipulação esportiva por meio da alteração de leis internacionais —, o Grupo de Copenhague atuou em coordenação com a própria força-tarefa da Fifa, da qual tanto ele quanto o Conselho da Europa fazem parte como membros independentes. Segundo as diretrizes do grupo, os alertas amarelos sinalizam um nível de alerta levemente aumentado devido a “diferentes indicações de irregularidades”, como flutuações inexplicáveis em cotações (odds), rumores em redes sociais ou informações obtidas de fontes. O sistema de monitoramento da entidade categoriza os episódios em quatro níveis: verde (normal), amarelo (alerta levemente aumentado), laranja (alerta aumentado) e vermelho (alerta máximo).
Incidentes investigados e o caso Balogun
Embora o relatório completo ainda não tenha sido publicado, um resumo de suas conclusões foi divulgado pelo Conselho da Europa. Fontes com acesso ao documento, que falaram sob condição de anonimato ao The Athletic, revelaram alguns dos episódios que geraram os alertas em campo:
- A expulsão do jogador sul-africano Themba Zwane aos 84 minutos do jogo de abertura contra o México.
- A movimentação de US$ 4,8 milhões na plataforma de previsão em criptomoedas Polymarket apostando que a Espanha não venceria Cabo Verde na fase de grupos — confronto que terminou em um empate sem gols.
- A demora de três minutos e meio da equipe do árbitro assistente de vídeo (VAR) para anular um gol do espanhol Ferran Torres na vitória por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita.
Além disso, os achados detalharam uma movimentação atípica envolvendo o atacante norte-americano Folarin Balogun. Em 2 de julho, a Polymarket abriu um mercado de apostas perguntando: “Folarin Balogun jogará contra a Bélgica?”. A aposta foi disponibilizada no mesmo dia em que o jogador recebeu um cartão vermelho contra a Bósnia e Herzegovina, na fase de 16 avos de final.
A controvérsia reside no fato de que o Comitê Disciplinar da Fifa só confirmou que Balogun estaria liberado para jogar — após ter sua suspensão suspensa — no dia 5 de julho. O relatório do Grupo de Copenhague enfatizou que nenhum outro mercado desse tipo foi aberto para os outros 14 jogadores que receberam cartão vermelho durante a Copa do Mundo, nenhum dos quais teve a suspensão anulada. Em razão dessa disparidade, o órgão internacional enviou um pedido oficial de esclarecimento por escrito à Fifa.
Volume bilionário e o desafio dos mercados de previsão
O Grupo de Copenhague estima que um volume impressionante de US$ 240 bilhões tenha sido movimentado em apostas ao longo da Copa do Mundo, o que representa aproximadamente o dobro do valor registrado na edição de 2022, no Catar. Diante do fluxo gigantesco, o grupo colocou 15 partidas sob vigilância reforçada — com foco especial na rodada final da fase de grupos — e analisou “12 grandes controvérsias à luz dos riscos de integridade”.
Pela primeira vez em um torneio internacional deste porte, a entidade realizou o monitoramento contínuo de mercados de previsão, como a Polymarket e a Kalshi (esta última parceira oficial da Fifa). Essas plataformas operam em um ambiente regulatório fragmentado e em rápida evolução, com regras que variam drasticamente entre as jurisdições.
“Esses mercados de previsão levantam questões inéditas: eles permitem apostas em uma ampla gama de eventos, frequentemente de forma anônima e usando métodos de pagamento difíceis de rastrear. Monitorá-los é algo inédito para uma competição internacional”, destacou o relatório.
Chad Beynon, analista do setor de jogos e hospedagem da empresa de serviços financeiros Macquarie Group, afirmou ao New York Times que o desempenho dos mercados de previsão durante o torneio “superou todas as estimativas que qualquer um de nós havia projetado”.
Explicações técnicas e gestão de risco
Apesar das bandeiras amarelas levantadas, especialistas alertam que atipicidades numéricas nem sempre são sinônimo de fraude ou manipulação. Christian Kalb, especialista no setor de jogos que já prestou consultoria a diversos governos e colaborou anteriormente com o Grupo de Copenhague — embora não tenha participado deste relatório específico —, explicou ao The Athletic que os alertas podem decorrer de estratégias de gestão de risco financeiro.
“Os alertas do Grupo de Copenhague podem ser explicados por comportamentos atípicos, como mudanças nas cotações ou cobertura de liquidez (hedging). Há muitas explicações que não são manipulações”, pontuou Kalb.
O especialista detalhou que operadoras tradicionais costumam utilizar plataformas de previsão para proteger suas operações contra grandes prejuízos: “Se você é um bookmaker tradicional, haverá jogos em que todos apostam no favorito absoluto para vencer. Do ponto de vista da empresa, isso pode ser um risco enorme se ela for pequena. Assim, ela pode usar um mercado de previsão como a Polymarket para fazer hedge [cobertura] desse risco. Ao fazer isso, ela usa os resultados em que os favoritos não vencem como uma apólice de seguro de fato, vendendo esses resultados contra a possibilidade de vitória do favorito para minimizar grandes perdas potenciais.”
Kalb ressaltou, no entanto, que o ponto crítico reside no uso de informações privilegiadas ou potenciais conflitos de interesse, e reforçou a complexidade de analisar os dados brutos: “O volume de apostas em uma Copa do Mundo é tão colossal que é muito difícil fazer qualquer extrapolação a partir disso. Cada partida representa bilhões de libras.”
A Força-Tarefa de Integridade da Fifa foi criada originalmente para a Copa do Mundo Feminina de 2019 e atua desde então em todos os mundiais. Procuradas pelo The Athletic para comentar as conclusões do relatório do Grupo de Copenhague, tanto a Fifa quanto a Polymarket não se manifestaram.