‘Os filhos não precisam de mães perfeitas’, diz terapeuta sobre autocuidado no Dia das Mães
Por Portal Correio Domingo, 10 de Maio de 2026
No imaginário de muitas famílias, a maternidade costuma ser associada à dedicação integral. Mas, em meio à rotina intensa de cuidados, tarefas e responsabilidades, muitas mulheres acabam deixando de olhar para si mesmas. Neste Dia das Mães, a reflexão sobre autocuidado e saúde emocional ganha espaço como um alerta importante para mães que, aos poucos, se anulam em nome do cuidado com os filhos.
Para a terapeuta Tatiana Mendonça, analista junguiana e especialista em Neurociências e Comportamento, um dos principais sinais de que a mulher está se abandonando emocionalmente surge quando ela deixa de se enxergar além do papel materno.
“Um dos principais sinais é quando a mulher deixa de se perceber como indivíduo e passa a existir apenas através do papel de mãe. Ela para de olhar para as próprias necessidades emocionais, físicas e mentais. Muitas continuam funcionando, cuidando da casa, dos filhos e das responsabilidades, mas emocionalmente estão desconectadas de si mesmas”, afirma.
Segundo Tatiana, esse processo costuma aparecer em situações cotidianas, como ausência de prazer, sensação constante de exaustão, irritabilidade, culpa ao descansar e até dificuldade de se reconhecer no espelho.
“O problema não é a maternidade. O problema é quando a mulher desaparece dentro dela”, pontua.
A especialista explica que o autocuidado vai além de momentos estéticos ou de lazer. Para ela, trata-se de uma necessidade emocional que impacta diretamente a dinâmica familiar.
“A forma como a mãe se trata influencia diretamente o ambiente emocional da família. Quando uma mulher está minimamente conectada consigo mesma, ela consegue ter mais presença, mais paciência, mais clareza emocional e mais capacidade de regular os próprios sentimentos. Isso melhora a comunicação, reduz conflitos e fortalece os vínculos familiares”, destaca.
Tatiana diz ainda que os filhos aprendem muito mais observando comportamentos do que ouvindo discursos.
“Quando uma mãe se respeita, se escuta e entende que também possui necessidades emocionais, ela ensina aos filhos uma relação mais saudável com a própria vida. Autocuidado não é egoísmo. É responsabilidade emocional”, acrescenta.
A terapeuta também chama atenção para a pressão social que ainda existe sobre a figura materna. Na avaliação dela, muitas mulheres cresceram ouvindo que uma “boa mãe” é aquela que se sacrifica o tempo inteiro, o que gera culpa sempre que tentam reservar um tempo para si.
“Existe uma cobrança muito forte sobre a ideia de que uma boa mãe precisa se sacrificar o tempo inteiro. Mas equilíbrio não significa abandonar a maternidade. Significa compreender que a mulher continua existindo além desse papel. Uma mãe emocionalmente esgotada pode estar presente fisicamente o dia inteiro e ainda assim não conseguir se conectar verdadeiramente com os filhos”, afirma.
Dentro de rotinas corridas, Tatiana defende que o autocuidado pode começar em pequenos gestos do cotidiano. Entre as práticas recomendadas estão criar momentos de pausa durante o dia, respirar conscientemente, reduzir o excesso de estímulos, retomar atividades prazerosas e aprender a pedir ajuda sem culpa.
Neste Dia das Mães, a terapeuta deixa uma reflexão para mulheres que frequentemente colocam as próprias necessidades em segundo plano. Segundo ela, os filhos não precisam de mães perfeitas, mas de mães emocionalmente presentes e conscientes.
“Existe uma diferença muito grande entre amor e autoabandono. Muitas mulheres foram ensinadas a se anular em nome do cuidado, mas uma mulher que se abandona constantemente tende a adoecer emocionalmente ao longo do tempo. Cuidar de si também é uma forma de ensinar aos filhos que amor não deve existir às custas da própria destruição. Eu acredito que uma das reflexões mais importantes é compreender que os filhos não precisam de mães perfeitas. Precisam de mães emocionalmente presentes, conscientes e minimamente inteiras”, conclui.